23 de abril de 2015

O ladrão e minha dificuldade em perdoar.

- O que? Ele não quer dar o celular? Dá um tiro nele logo... "nóis é" o crime!

Assim disse o sujeito da moto, quando meu filho resolveu não dar o aparelho ao outro ladrão, que desceu da garupa com arma em punho e recolhia os aparelhos de mais dois amigos dele. Os ladrões eram jovens (e não sei se cabe aqui a discussão se eles tinham anos a mais ou a menos para serem punidos pela Lei) e não se importavam que eram duas da tarde de uma quinta-feira, e nem do ponto de ônibus  - onde esperavam o ônibus que os levariam para o trabalho -  estar cheio de testemunhas.

Gabriel, debaixo de ameaças de morte e com uma eminente coronhada prometida, entregou a contragosto o celular, o segundo aparelho roubado em menos de um ano. Chorou de raiva. Não era um "top" de linha, mas ele trabalhou para obtê-lo e ainda nem estava pago. O mesmo aconteceu com os outros dois rapazes roubados: eles se submetem a empregos ruins para conseguir um salário baixo, mas que possa bancar a prestação de seus sonhos de consumo.

Gabriel pegou o coletivo e trabalhou - como sempre faz -  até as dez da noite, sem nos avisar do roubo. Descobrimos antes, de forma angustiante. Uma voz infantil ligou usando o chip do aparelho por volta das oito da noite.

- Oi. O celular do seu filho foi roubado e tá aqui na biqueira* apitando. Queremos devolver, estamos com medo da policia baixar aqui por conta do localizador do celular... Manda ele vir buscar...

Descobrimos depois que a mesma pessoa ligou para diversos contatos da agenda contida no chip: hora pediam senha do aparelho (que estava programado para "resetar", caso alcançasse dez tentativas sucessivas de desbloqueio sem sucesso), hora faziam ameaças. Queriam o endereço da minha casa.

*Biqueira, caso alguém não saiba, é como chamam atualmente aqui em São Paulo o lugar onde se vende drogas. Os aparelhos estão lá, inúteis em uma gaveta (já que podem ser localizados) e serviram como moeda de troca de algum novo revendedor de drogas na região. Um conhecido disse que certas assistências técnicas pegam os aparelhos para utilizar as peças na manutenção de outros aparelhos. Isso já acontece no "mercado" de furto de carros.

Já há algum tempo que são frequentes os roubos em pontos de ônibus acontecem na região. As vezes fazem as 6 da manhã, quando a pessoa se dirige para o trabalho. A polícia, na maioria dos casos, foi notificada. Segundo um dos moços que procurou uma delegacia para fazer o boletim de ocorrência, o pessoal lá não dá muita atenção para este tipo de caso. Infelizmente, creio que será necessário que alguém morra e a imprensa divulgue o caso para que isso possa ser investigado.

Na região não faltam comandos policiais recolhendo carros irregulares aos pátios, e nos bairros mais "ricos", o policiamento é mais ostensivo. Por isso, o bandido hoje rouba o que vive na periferia e na favela.

Todos sabem que estamos sendo roubados, todos sabem onde fica o ponto de tráfico. A luz do dia, testemunhas, câmeras de segurança, não inibe a necessidade do candidato a bandido cometer suas covardias com arma em punho.

Um versículo que sempre me incomoda em dias como este é:

Eis que venho como ladrão - Apocalipse 16.15

Sim. Tenho dificuldade em lidar com essa injustiça, aceitar pessoas que deliberadamente colocam armas na cara de pessoas e levam, pela violência e intimidação, coisas que nunca fizeram por ter.

Sabe aquelas pessoas que, ao observar o motoqueiro empinar com sua moto, torce intimamente para que ele caia? Sou cristão: me surpreende que certos sentimentos me invadam.

O discurso certo é perdoar quem me agride, mas meu filho foi atingido- e vários amigos, deles e meu - que perdem periodicamente seus bens para que um jovem tente ingressar no tráfico (ou consumir do mesmo), gritando com revolver na mão que ele é o "Crime" enquanto leva o bem da empregada que comprou em 12 vezes sem juros nas Casas Bahia, geram em mim um sentimento confuso, uma satisfação íntima quando imagino que - logicamente - em breve esses moços estarão amargando alguma vala anônima, ou levando toda a família a visitá-lo em alguma penitenciária. 

Eu sei: eles podem se converter e, em um belo dia, estarem de mãos dadas comigo na Igreja, cantando corinhos sobre a Graça divina. Mas por hora, são apenas homens de Belial, e como tal, seus dias serão abreviados na Terra.

Mas por que Cristo escolheu justamente um ladrão para explicar a forma que Ele virá a cada um de nós?

Quando se é assaltado, o sentimento de impotência habitualmente nos invade. Dias depois, ainda simulamos como teria sido se agíssemos de forma diferente, se ao invés de irmos por certo caminho escolhêssemos outro, se pudéssemos estar alertas a algo que parece tão óbvio depois que acontecesse. Saber se defender, enxergar o que estava se desenhando a nossa volta.

Costumo estar bem atento quando procuro caixas eletrônicos. Sei que já escapei de algumas ciladas, quando observei que algumas coisas não se encaixavam no ambiente onde precisava sacar meu salário. Via que algo estava estranho na atitude de um ou outro individuo que não faziam o que deveria ser feito nesse tipo de lugar.

Sim. A necessidade de estar em constante alerta explica a pretensão de Cristo de vir no tempo Dele e não no nosso. Procurar estar preparados para esse encontro a cada instante é a proposta de Cristo.

Quanto ao Ladrão, que rouba para comprar drogas para revenda, o faz porque há quem consuma desse mercado. E se polícia, por exemplo, sabe desse mal e não reprime, nem no roubo  - mais complicado de pegar - ou na biqueira, onde todos conhecem e consomem, deixa em nós uma sensação de que filmes como Tropa de Elite ou Cidade de Deus não são tão exagerados.

2 comentários:

  1. Minhas condolências ao seu filho, Zé... Já arrombaram meu carro e sei como é duro... :/

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  2. Gostaria de saber mais informações.
    lucizane75@gmail.com

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