21 de abril de 2015

Somos todos hipócritas


Existem muitas formas de despertar.

Falo de sono mesmo, daqueles que nos abatem no ônibus ou nos faz pernoitar pesadamente, nos preparando para um novo dia de trabalho. 

Usando essa nossa necessidade cotidiana como figura de linguagem, muitas vezes acordar para uma realidade nem sempre é algo confortável. Muitas vezes é como tirar o pesado edredom em um dia de frio intenso, nos trazendo o convite para andarmos em uma madrugada chuvosa rumo a nosso cotidiano.

Claro: sempre existirá o que acorda aos pulos, sem sono, e cantarolando, ou aquele que levanta até antes do despertador anunciar que é hora. No caso da vida, de ter que abandonar o conforto de um ninho existencial e encarar um mundo sem as ilusões da dormência, a reação inicial em geral é de típico mal humor (salvo casos onde a falta de conforto do travesseiro é tal que qualquer mudança de ambiente é bem-vinda).

Estranhamente, muitas vezes o sussurro suave ao pé do ouvido é tomado como um chacoalhão, como se um terremoto ocasionasse esse despertar.

Anos atrás, quando me deparei com meu primeiro ateu nas redes sociais (falo de quase duas décadas passadas), sujeito de argumentação truculenta, cheio de informações e dados biográficos, citações de pessoas inteligentes, cientistas, filósofos. Enfrentava alguém que prestava atenção nas aulas de ciência e biologia (aulas que eu nunca frequentei) e tive que lidar com argumentos falaciosos que jamais tinha lidado, já que minha conversão levava minha visão para um mundo de Poliana, onde tudo dava certo, e não exigia - nem estimulava  - questionar qualquer líder que me ensinava.

Foi ali meu primeiro "despertar". 

Reagi de forma igualmente truculenta, quis revidar a agressão emocional que aquilo me causava, e ele, Fernando, não poupou observações e acusações sobre meu comportamento nada cristão. Eu estava revidando, ao contrário do ensinado por meu Mestre, que ofereceria a outra face. Fernando contava com isso, é verdade: descobri posteriormente que ele usava o tempo livre nisso e divertia-se com a possibilidade de agredir e humilhar infinitamente sem se preocupar com o revide, mas eu, novo nesse negócio de ser crente, não me importava com a máscara de evangélico que tinha que usar. Na época, nossos nomes e apelidos não tinham fotos que nos identificassem. Fica fácil ser nós mesmos quando se tem a ILUSÃO de que não se pode ser identificado e, portanto, falamos publicamente o que não se diz nem em reunião de família regada a cerveja ). Hoje, curiosamente, muitos falam abertamente esses absurdos, esquecendo que são identificados.

O mais estranho é que os outros cristãos do grupo (um fórum virtual que até então apenas acompanhava, lendo os comentários e debates) - pareciam indiferentes às declarações terríveis e reais daquele ateu - procurando protegê-lo (de mim...rs) e faziam de tudo para mantê-lo sempre por perto. 

E eu? Minha fé foi posta em dúvida. As palavras lidas e as provocações implodiram lentamente meu sistema de crenças: havia verdade no que ele dizia e, como alguém que foi chamado de um lindo sonho, acordei bem mal humorado.

Sim, amigos: foi nessa que me "ateizei". Detestava constatar que os inteligentes não acreditavam em Deus. Será? A resposta dessa pergunta seria outro despertar, já que voltei a ler tudo que aqueles debatedores cristãos "nada-ortodoxos" escreviam e constatei que eles já tinham superado "aquilo" há tempos. Ficou claro que o ateísmo na minha vida era uma escolha a ser abraçada ou descartada, sem que o Mestre interferisse (o que parece estranho sempre, mas não é).

Nesse tempo também percebi que muitos dos meus amigos de igreja evitavam esse pensamento cético, como se fosse um abismo a ser ignorado - mas sempre evitado, e que o mundo colorido das bobagens evangélicas religiosas fosse uma eterna solução. No fundo, eles sabiam que fingiam crer usando o sistema de regras de sua religião e no fundo, eram tão ateus quanto eu estava. Mas precisavam manter-se ali - não me pergunte o porquê. Subiam ao púlpito e despejavam jargões e jargões sobre a plateia apática, como se treinassem para falar em algum congresso para crentes que não os conhecessem.

Como ensinou Jung, era uma "persona" construída especialmente para aquele momento, com trejeitos, caras e bocas, com o sincronismo pentecostal de quem responde com alguma palavra mágica â mudanças de tonalidade de voz no discurso (muitas vezes ouvi pessoas falando sobre Satanás com a tonalidade de quem fala de Deus, e o ouvinte acaba gritando um "aleluia", dando graças, sem perceber, às obras do inferno).

Talvez você discorde do título deste texto, mas se você tem um perfil registrado no Facebook, por exemplo, você tem sua persona, sua máscara construída sem as sombras que fazem parte do seu cotidiano. 

Confessa: assim como na igreja, procuramos mostrar apenas nosso lado bom nas redes sociais. Nossas fotos normalmente não mostram realmente quem somos na verdade: temos pneu, mau halito, trejeitos estranhos. Não falamos em versículos e nem nosso assunto é um só. Moralmente, montamos o ideal, não o real. 

Alguém pode protestar, negando isso. Que em casa e na igreja - e quem sabe no Facebook - são exatamente iguais. Resta saber se dentro dessa pessoa ela é tão boa quanto pensa que é.

Sim. Usamos máscaras para sermos aceitos, para nos acharmos dignos de ser amados, para ser incluso no grupo que está em alta.

Deus mesmo não se importa com isso. Na verdade, para falar com Ele, temos que nos despir de todas as máscaras, de toda a hipocrisia, e nos apresentarmos nus. Foi nu que eu reencontrei o Senhor. E é nu  que sempre tento permanecer diante Dele.

As pessoas do meu meio sentem-se incomodadas com minha "persona" que não teme as "sombras". A Palavra diz que não existe um justo sequer, embora meu Senhor justifique milhares de milhares.