19 de dezembro de 2009

Para Ler e Pensar - Herman Hesse

Zé Luís


"Não acredito que o futuro nos traga uma humanidade "melhor". Não creio que venha ela a ser nem melhor nem pior do que esta. A humanidade é sempre a mesma. O demônio irrompe no ser humano não apenas de maneira velada ou encarnado em criminosos e psicopatas. Muitas vezes e em alta escala, o diabo faz política e dizima povos inteiros."
Para Ler e Pensar - pg 19 - Herman Hesse

Existem frases e discursos que não fazem o menor sentido quando alguém conta o quanto aquilo foi impactante em toda uma sociedade e época, como o famoso discurso de Mathin Luther King Jr., "I Have a Dream", os marcantes sermões de Spurgeon, ou mesmo os protestos de Luthero.

O detalhe não está no texto, mas no contexto em que eles vieram
Marthin Luther King falava de igualdade de raças em uma América que exigia que o negro desse lugar no ônibus quando algum branco assim o solicitasse. A opinião pública julgava o racismo cotidianamente aceitável. O trabalho pacífico iniciado através deste homem, ainda nos anos sessenta, mudou a história de um país de forma tão radical, que em poucas décadas foi capaz de eleger um presidente negro.

A frase acima, do alemão Herman Hesse, (Calw, 2 de julho de 1877 — Montagnola, 9 de agosto de 1962), que em 1923 naturalizou-se suíço não é bem um destes casos.

Nascido no seio de uma família muito religiosa, filho de pais missionários protestantes (pietistas, como é típico da Suábia) que tinham pregado o cristianismo na Índia. Estudou no seminário de Maulbronn, mas não seguiu a carreira de pastor como era da vontade de seus pais. Tendo recusado a religião, ainda adolescente, rompeu com a família e emigrou para a Suíça em 1912, trabalhando como livreiro e operário. Acumula então sólida cultura autodidata e resolve dedicar-se à literatura...

Até aí, nenhuma novidade: ser nobel de literatura com várias obras com O Lobo das Estepes, Demian, Hoshdale, Sidarta, entre tantas, mostrando estilos tão diferentes que nem parecem que foram escritas pela mesma pena, é tão comum entre gênios como Saramago, mas são apenas livros na estante.

O que o diferencia? Sua escolhas:
Ser anti-nazista em plena Alemanha de Hitler, ser anti-guerra numa época que sua nação ganhava força com esta prática, não se preocupar com popularidade quando ela impõe que aceitemos o que é imoral. Seus livros estavam entre aqueles que o 3º Reich queimou em praça pública, suas honras foram destruídas pelo governo do fuhrer, sua obra: proibida, censurada, banida.

Nós, por comodidade ou sabe-se lá qual justificativa, desistimos de nossas convicções por qualquer vento que nos torne impopular, procurando sempre o melhor atalho, menos doloroso mas que tem como pedágio, o abandono de nossas primeiras convicções, que certo homem ressurreto chamava de "Primeiro Amor".

Além de uma clara provocação política, a frase, escrita numa época onde o Evolucionismo era tido como resposta absoluta para a origem da vida, pode ser hoje contemplada como uma espécie de profecia, onde o homem contemporâneo, apesar de tanta tecnologia, permanece o mesmo. Como dizia aquela velha música dos Titãs:
"...Desde os primórdios até hoje em dia , O homem ainda faz o que o macaco fazia..."

Herman Hesse, que não conheceu o Titãs nem imaginava conhecer a América do Sul, já sabia disso.

Mais detalhes biográficos de Herman Hesse: Wikipedia