2 de maio de 2010

O monstro íntimo

por Zé Luís



Creio que, se esta música fosse feita para mim, não pareceria tanto.

Estou no motivo de tantas ações, tantas justificativas. Sou causa de tantas doenças, revelo tanta hipocrisia, em todos, com raríssimas exceções.

Isso não me aborrece, comove ou diverte. Sou ferramenta, poderosa na mão daqueles que sabem me usar com palavras e, consequentemente, pensamentos, embora estes manipuladores não estejam livres de mim, e terão que, igualmente,me prestar conta.

Sim: você é sábio quando me teme, me evita. Tolo quando conta uma história irreal tentando se enganar, dizendo que já não o atinjo. Não existem advogados que me dissolvam ou anulem aonde eu realmente atuo. Não sou deusa nem demônio: imputar-me isso seria imprudente.

Meu efeito é melhor entre os vivos. Os mortos não sentem a dor de meu ataque da mesma forma contundente. As vezes, de madrugada, quando dormem seu sono pesado e ordinário, Deus parece dar um pouco de vida a estes mortos, e então, eu os acordo. Sentam-se a beira da cama, segurando a cabeça como se fosse um peso sobrenatural. Sou eu mostrando minha força, meu poder, minha adaga mais pontiaguda. Alguns entre lágrimas desesperadas, outros em ações de auto-punição (alguns chegam ao extremo... já vi muitos).

Lidar comigo? mentira é uma saída imprudente. Ocultar-me? Fingir que não existo? Se fosse humana me rira com esses raciocínios.

Você que leu até aqui, ou mesmo este que escreve estas palavras para - e sobre mim, sabe que não rosno ou posso ser retratado na minha forma real, mas sabem que assombro a muitos, mesmo aqueles que se declaram absolvidos pelo próprio Criador.

Eu sou a Culpa.


Esse é um trecho de um projeto - quem sabe um livro? - em que estou trabalhando, e assim como ela faz as vezes, está me roubando o sono.