20 de agosto de 2010

Aprendendo com os incômodos

Éramos a única família no restaurante com uma criança.

Coloquei Daniel numa cadeira para crianças. Todos os cliente comiam tranqüilos, conversando, curtindo a noite.

Daniel gritou animado: 'Oi, migão!' , batendo na mesa com suas mãozinhas gordas. Seus olhos bem abertos e sua boca escancarada, por pura admiração infantil. Satisfeito, ria gargalhadas altas.

Olhei em volta, e logo vi a razão de seu contentamento, a janela, a poucos metros da nossa mesa:

Um andarilho, casaco em farrapos jogado nos ombros, sujo e engordurado. Suas calças eram trapos com as costuras abertas até a metade e seus dedos apareciam através do que foram, um dia, caros tênis esportivos, sua camisa só não estava tão imunda quanto o seboso cabelo, que parecia não ver pente ou mesmo tesoura a muito tempo;

Em seu rosto, o nariz vermelho e disforme tinha tantas veias que parecia um mapa, contrastando com a desgrenhada barba. Embora não tão próximos, o odor dos dias sem banho nos chegava.

“Olá, neném. Como está você?” - disse o homem, acenando as mãos calejadas.

Minha esposa e eu nos olhamos diante do constrangimento, num pensamento comum:“Que faremos?”

Daniel continuou rindo e respondeu: “Oi! Oi, migão!” .

Logo, todos no restaurante nos olhavam, vendo o bizarro episódio com o mendigo, esboçando nítido incômodo com a situação. O velho sujo incomodava nosso lindo filho, diante um público de pessoas normais.

Trouxeram a comida, o homem começou a falar com o nosso filho como um bebê. Ninguém acreditava que o que o indigente fazia era simpático. Obviamente, estava bêbado.

Minha esposa e eu estávamos envergonhados. Comemos em silêncio; mas Daniel! Inquieto, mostrava todo o seu repertório ao desconhecido, a quem conquistava com suas criancices.

Finalmente, terminamos de comer e nos dirigimos à saída. Minha esposa foi pagar a conta, enquanto eu a esperaria no estacionamento, com meu filhinho.

O velho se encontrava muito perto da porta de saída, e senti o pânico inexplicável começar a tomar.

“Deus meu, ajuda-me a sair daqui antes que este louco fale com Daniel”, orei, enquanto caminhava para a inevitável aproximação do sujo homem. Estufei o peito, evitandoaté respirar próximo dele, não queria sentir seu fedor.

Enquanto eu fazia isto, Daniel se virou na direção onde estava o velho e estendeu seus braços, procurando ir ao colo dele, e antes que pudesse impedir, Daniel se jogou dos meus braços para os braços do homem.

Rapidamente, o velho fedorento e o menino estavam abraçados. Daniel, num ato de entrega total de confiança, amor e submissão, recostou sua cabeça no ombro do desconhecido.

O homem fechou os olhos e pude ver lágrimas correndo por entre as rugas de sua face.

Suas velhas e maltratadas mãos, cheias de cicatrizes, dor e trabalho duro, suave, muito suavemente, acariciavam as costas de Daniel.

Nunca dois seres haviam se amado tão profundamente em tão pouco tempo.

Eu me detive, aterrado. O velho homem, com Daniel em seus braços, abriu seus olhos e me encarando, disse com voz forte e segura:”Cuide deste menino”.

Com um imenso nó na garganta, respondi: “Assim o farei”.

Ele afastou Daniel de seu peito, lentamente, como se sentisse uma dor, devolvendo-me. Peguei meu filho e o velho homem me disse:

“Deus o abençoe, senhor. Você me deu um presente impagável...”

Não pude dizer mais que um entrecortado “obrigado”. Com Daniel nos meus braços, caminhei rapidamente até o carro. Minha esposa perguntava por que estava chorando e segurando Daniel tão fortemente:

“Deus meu, Deus meu, me perdoe”- era só o que conseguia dizer, numa voz entre-cortada por soluços.

Acabava de presenciar o amor de Cristo através da inocência de um pequeno menino que não viu pecado, que não fez nenhum juízo; um menino que viu uma alma e uns adultos que só viam lixo humano em farrapos.

Um cristão cego carregando um menino que não o era.

Senti um questionar retumbando em meu peito:

“Estás disposto a dividir seu filho por um momento?”. Ele Compartilhou Seu Filho por toda a eternidade.

O velho indigente, inconscientemente, me recordou:

Eu asseguro que aquele que não aceite o Reino de Deus como um menino, não entrará nele. ' (Lucas 18:17).

Autor desconhecido,
Colaboração: Roberto Donizetti