28 de outubro de 2010

Métodos do Mestre

por Zé Luís

O Mestre sabia como driblar uma mente crítica: usava histórias, ao invés de explicitamente dizer o que tinha que ser dito. Quando se ouve uma opinião contrária (sendo esta arraigada dentro da cultura social), a tendência natural é enrijecer-nos em nossa posição, como quem revida a uma agressão, sem analisarmos se o que está sendo proposto é ou não coerente.

As parábolas de Cristo permanecem na alma, indefinidamente, e como uma bomba relógio,  implodirá em um prazo que não somos capazes de calcular. Pode ser agora, daqui a cinco minutos ou mesmo dez anos.

Era comum usar figuras de época como o trabalho na agricultura, o cotidiano e o comportamento para expor um ponto de vista que, a priori, seria refutado. Se pregasse hoje, certamente, a tecnologia estaria recheando seus temas de ensino.

Quando conta a parábola do “bom samaritano”, usa com simplicidade minimalista, elementos da religião e da hipocrisia em que seus ouvintes estavam mergulhados: dos três homens que viram um desconhecido caído por ter sido vítima, apenas aquele – qual os judeus abominavam, o mestiço nascido em Samaria – foi capaz de fazer o que se espera de um homem piedoso, como deveria ser o caso dos outros dois personagens: o levita e o sacerdote.

A parábola não se resume a isso(na verdade, ela foi, é será recontada pelos séculos, com as mais diferentes conclusões e ensinamentos), mas quando menos se espera, ela já está circulado pela alma, e fazendo seu trabalho de demolição de valores corrompidos.

Logicamente, em algumas destes contos, agiremos como discípulos e, extasiados pela perfeição de seu ensino, replicaremos sua estória e conteúdo. Noutras porém, agiremos como eunuco etíope de Candace, que lê e não entende (quanto a isso, o próprio Espírito se encarregará de mover um discípulo, mesmo que se esteja a quilometros de onde pensávamos estar a resposta). 

Ainda existe o problema de nosso lado fariseu se manifestar, não aceitando o que na parábola vai, e ainda nos sentirmos no direito de colocar o dedo em riste na cara de Jesus, querendo repreendê-lo pela afronta:

Onde já se viu esse moço, com trinta e poucos anos, que se apresenta como Deus, dizer que se admira do esforço de sobrevivência de funcionários desonestos, como o que foi contado na parábola com este tema? Ou usar pessoas em plena atividade intelectual pós-morte (o que é uma afronta à crença aniquilacionista, ou àqueles que julgam que defender essa crença é crer no espiritismo), como na parábola do rico e Lázaro, num céu e inferno que se enxergam, embora nada façam em relação ao outro? E a escandalosa história sobre prostitutas entrarem no céu antes dos religiosos carolas?

Talvez os mais entendidos sobre agricultura queiram corrigir a parábola do semeador, que parece estar louco: lança sementes por onde anda, sejam em terrenos férteis e inférteis, nas ruas, em pedregais, em espinheiros. Mas se teve a chance de receber esta mensagem, certamente já tem respostas para muitas indagações aparentemente justificáveis como esta, e tem em sua alma – e não na ponta da língua – a paz de saber o que o Filho ressuscita almas mortas com seu ensinamento. Sabe que esse semeador não tem interesse de economizar em sementes, quando o solo a quem ele se refere é você.

Para que seu solo esteja apto – outra ilustração aqui – ou seja, para que você possa receber as informações contidas nas parábolas, se desarme de conceitos preestabelecidos (ou se preferir, de seus preconceitos) e ouça-as como se quem lhe contasse, fosse alguém inexplicavel e gratuitamente interessado em seu bem estar, alguém que tem você como objetivo primordial, um total desconhecido e ordinário cidadão, querendo que esteja em paz consciente pela eternidade. Pense que o autor destas histórias, ser capaz de gerar universos, prefere morrer por você se isso significar sua redenção.

Gostaria aqui de expor minhas reflexões sobre o que o Mestre tem ensinado em seus contos, mas deixemos isso para outra oportunidade. Enquanto isso, por que não começa a escrever às suas?

Um comentário:

  1. PoiZÉ...

    Essa tendência muito forte em nos fecharmos para o que o outro diz, nos faz cada vez mais cegos nas nossas vaidades tolas impedindo-nos de "enxergar" as palavras de vida que ele (o outro) deseja nos transmitir.

    A parte boa, é que se for mesmo Evangelho pra valer, é como vc diz, uma hora explode dentro da gente e nos liberta de todos os conceitos pré-estabelecidos. Então, a esse esvaziamento, segue-se um preenchimento único, de GRAÇA! Amém!

    Que texto maravilhoso!

    Deus te abençõe,

    R.

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