13 de novembro de 2010

Náufrago

por Zé Luís

Um pequeno estalo seguido de um estrondo, a queda repentina.

Abriu os olhos e viu que os mundos não podiam mais ser os mesmos. Na nublada e fria praia, destroços, pedaços de uma vida que ficou para trás, na qual um dia se sentiu seguro e aquecido.

Agora, restos espalhados num campo desconfortável e solitário, onde não há com quem compartilhar feridas e lágrimas, mas se pode prostrar-se o tempo que quisermos, lamentando seu destino cruel, lambendo suas dores. Pode-se desfrutar do frio travesseiro do desespero e sorver da água salgada que o mar da vida nos trouxe, que não limpa quando banha, nem mata a sede quando se bebe. Apenas oferece um impessoal frescor momentâneo.

Ele sente espinhos sempre que a lembrança de um tempo que acreditava que tudo seria sempre o que projetava, e é o que dó mais: sabia que a rota de colisão era inevitável, embora conhecesse as turbulências que o trajeto poderia trazer – embora insistisse em passar por ali, em seu frágil veículo, crendo em sua resistência.

Agora, que tudo é irremediável e irreversivelmente destroçado, resta-lhe só migalhas.

-São as migalhas, renovadas, do começo de sua jornada. Lembra? - diz a presença branca, em pé, enquanto prostrado, choroso, abraçado a pedaços rotos do passado.

A simples palavra o fez refletir. Aquela presença já havia lhe falado algumas vezes, talvez centenas, de diferentes formas, mas como regado pelo pranto, elas brotaram como renovo de um tronco seco, e, mas diferente, já que em muitas outras vezes, foram arrancados como fosse praga daninha.

Daquela vez, ele caiu em si.

Não havia esperanças de um recomeço naquela situação, aquela roupa – um dia bela e desejável – parecia ridícula naquele ser atingido pela mudança que as tragédias cotidianas trazem quando nos atingem. Seus artelhos foram se colocando de pé, trêmulos, e as fisgadas das lembranças tentavam jogá-lo no chão mais uma vez.

Ele odiava – ocultamente - a presença branca: Certamente, Ele existia e podia ser responsabilizado pela forma que seu destino tinha tomado. Mas agora, com lágrimas secas em suas bochechas, percebeu que estava no meio de sua própria história, e que não havia outra maneira de existir sem ter passado por aquilo (não que toda aquela dor fosse necessária, mas dela fez fortaleza).

Levantou, olhou a sua volta pela primeira vez, e viu que muitos outros náufragos rolavam na areia fria entre lágrimas e dor.

Foi-se mancando reconstruir uma morada, como a muito não fazia. Não entendia que aquela vida tinha cara de tragédia por conta de expor seus destroços na sala de estar, entre a felicidade e o porvir(que nem cria mais ser possível andar junto). Houvesse abandonado e partido antes, deixando para trás o irremediável, não ficaria estagnado como estátua de sal olhando Sodoma ser destruída.

O tempo mostrou sua história, mas não me cabe contá-la toda. A vida é feito de nuances indescritíveis. Como dizer o que será de cada náufrago? Eles são milhares, mas sempre se veem sozinhos. Só Ele que nos ajunta, para fazer dos caídos, um exército de bravos como os renegados de Davi. Mas isso é outra história...

4 comentários:

  1. PoiZÉ,

    Quando a tempestade vem e nos carrega para lugares estranhos há uma mudança tão radical, uma desarrumação e reconstrução tão profundas que quando se olha para trás - e para dentro de si mesmo - é que se vê que estranho mesmo era aquele lugar de antes. E que essa incrível experiência é pessoal e, portanto, pra se vivenciar sozinho mesmo, posto que instalada no âmago do ser.

    Abs,

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  2. Esse texto me fez calar e refletir...
    Compreendo simplesmente tudo!
    Compreendo de ter vivido, experienciado...

    Excelente texto! Excelente!
    Bravo!

    Abraço,

    Carla.

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  3. eu compreendo tudo também...estou abraçada na bola wilson até agora...kk desculpe, meu lado comico falou mais alto, desculpe mesmo..rsrsr

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  4. Me vejo náufraga, chorando solitária, quando Ele, através de pessoas especiais, me fala: "vai, reconstrói. Coragem! Estou com você, transmitindo um pouquinho do amor que Ele tem por nós."

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