4 de junho de 2011

E a soberba?

por Zé Luís

Sempre ouço de alguns cristãos - do meio evangélico  - uma teologia onde todos os pecados são iguais, e que não existe “pecadinho ou pecadão”, já que para Deus, não existe um sujo e outro sujo e meio.

O raciocínio faz com que muitos não percebam que um falso testemunho não tem o mesmo poder destrutivo de um adultério ou assassinato. Verdade é que, embora a doutrina dos sete pecados capitais faça parte do catecismo católico (ou seja, posso me abster desta doutrina por ser protestante), vale o conhecimento já que no inicio da Igreja isso era algo inerente ao que se aprendia, como por exemplo: que um pecado pode ter um peso destrutivo maior que outro, ou gerar novas crias, como na lenda de Lilith e suas crias demoníacas, geradas através da cópula com o próprio diabo.

Nós, de descendência latina, e que tivemos a formação religiosa a partir da  origem doutrinária católica (como a maioria dos brasileiros), enxergamos no  sexo o grande pecado, quando a “luxúria”, a forma sexual exagerada e deturpada, está bem abaixo na “hierarquia” das maldades humanas, listada entre os sete pecados capitais.

Os chamados pecados capitais teriam a capacidade de gerar pecados menores, a inveja gera o ódio, a gula gera a ganância, a ira se auto propaga.

A Soberba (ou orgulho, vaidade, arrogância) é considerado por alguns teólogos da antiguidade - como Agostinho – como um pecado acima dos outros, o “or concur” das ofensas a Deus.

Você certamente conhece aquela pessoa “que se acha”, que olha os outros de cima para baixo, e que sempre buscou ser mais do que os outros para poder olhá-las assim. Aquele tipo que sorri intima e maliciosamente ao ver o trabalho alheio, pensando: “que lixo...”. Ele sempre está certo, nunca pode ser confrontado, questionado, e se por acaso o poder chegou-lhe às mãos, atribui sempre tal oportunidade a seus dons e atributos pessoais.

Estão pelo mundo, em locais bons e maus, em bandidagens e púlpitos, suas reações violentas são justificadas pela ameaça de maculação ao seu objeto de adoração: seu próprio ego.

Massagear seu ego é sua fraqueza, pois vivem para sua auto-gestão, e sua presunção o cega: “Quem seria capaz de atingir alguém como eu? Sou imbatível!”

Se você souber como, enriqueça comprando essas pessoas pelo preço que valem, e as vendendo pelo preço que elas pensam que valem.

Não confunda a soberba com a noção pessoal de sua própria capacidade, seja ela profissional, emocional, espiritual, pois Deus dá a cada um a sua medida e para Seus propósitos (nestes, daremos conta de como e para que fins foram usados).

A soberba foi a razão da queda do Querubim da Guarda, conhecido atualmente como Satã. Ele, sendo criatura, queria estar acima de Deus, e colocar seu trono acima do Dele (uma criatura no comando do universo seria a bancarrota da existência. Por isso, o diabo não tem reino, e nem almeja isso. Ele visa apenas destruição, a não-existência de qualquer espécie).

Caído, usou o mesma “receita” para com o primeiro casal humano. Argumentou:  “Serás como Deus... saberás como Ele...(o que não era mentira nesse caso). O que seduziu o casal era o desejo de ser mais. Eis a queda do homem, eis sua bancarrota anunciada e explicita.

O Criador abomina o egocentrismo, causa da necessidade de todo um plano de redenção. Sim, olhando a princípio não parece algo tão terrível quanto o “sexo”, por exemplo. Deus está exagerando nesse processo de auto-estima exagerada. Mas perceba que esse mal está tão arraigado em nós, seja em nosso ambiente de trabalho onde juramos sermos superiores, seja nos púlpitos vaidosos onde pessoas imaginam suas interpretações e formas, e fazem – muitas vezes de forma truculenta – valer sua opinião.

Deus os coloca em lugares escorregadios, e eles imaginam que esses lugares são eternamente contornáveis, que não existe queda eminente embora tenham consciência que onde estão é lugar feito para queda. Eles não abrem mão de estarem nesse lugar, e o Todo-poderoso os mantém lá, até que concluam seu destino trágico, ou se arrependam.

O Salmo 73 conta a história de um salmista invejando o sucesso dos soberbos. A arrogância em si gera outros pecados de forma fractal, prolongando seus galhos como as folhagens de uma samambaia. A violência é justificada pelo ego, a mentira, o falso testemunho é usado contra aquele que ameaça o ego que quer se agigantar, causando outros sentimentos, que geram novos pecados, como na teoria do Caos.

Sei que falar de pecados é algo desinteressante, ou mesmo desconfortável. Mas é por eles que o sangue é necessário, o sangue do Cordeiro que tira os pecados do mundo. Não podemos tratar isso de forma tão espúria.