25 de julho de 2012

Sobre a opinião de quem realmente interessa

por Zé Luís

Nem sempre é agradável ser considerado um cristão confuso. Na verdade, a gente se sente só, mas não chega a ser aquela solidão triste e melancólica.

Nem todo mundo enxergará em você um cristão quando não se usa o vocábulo correto, não usa frases formatadas para responder sobre aquele culto, ou não definir uma pregação como algo capaz de gerar poder, e nenhuma transformação. Não, eu não converso assim na minha casa, com meus familiares, nem entre os colegas de serviço. Por que agiria diferente em um ambiente onde – supostamente – estou entre irmãos que me amam?

Dia desses, uma convertida, frequentadora desses pequenos grupos de células – uma esquema que lembra muito as Amways piramidais - recusou-se a entrar no assunto “bíblia” comigo: “gosto é de poder, dançar no Espírito...”. Um outro crente então, participante do grupo sentado a mesa na hora do intervalo de almoço, reconhecendo nela – por isso - cristã legítima, começou a evitar meus assuntos quando ajuntávamos o pequeno grupo de crentes que andava na hora do almoço: eles tinham uma opinião sobre meu credo, minha forma descontraída de falar do meu Deus, e isso – ao que tudo indicava – desclassificava minha alma para o hall dos ungidos.

Eles não conhecem bíblia, não sabem nada sobre homilética, hermenêutica, não fazem a mínima ideia do que foi a reforma protestante, ou o que realmente é necessário em um ritual cristão. Pentateuco, para eles, os escolhidos especiais de Jeová, pode ser confundida com alguma modalidade esportiva, e livros poéticos nada tem haver com Salmos, Jó, Cantares... mas com o mundano Fernando Pessoa e sua corja de entidades psicografadas. Pela Graça – assunto que eles também olham com estranheza – consegui guardar estas coisas em meu coração.

Eles gostam muito de testemunhar como o Senhor fez, e de quanto fará em sucesso e benção, profetizam alegremente as conversões de familiares amados, e decretam a derrota de quem os perseguem... mas quando se questiona a forma em que Deus está sendo tratado nessa intenção, o velho olhar condescendente, aquele ar de falsa piedade para com a minha vida, vem à tona:

“Tadinho – pensam, enquanto se entreolham – não teve um encontro com o Senhor ainda...”

E o Senhor, sempre ao meu lado, toca em meu ombro, e saio, caminhando sozinho pelas ruas, sinceramente sem me importar com o que eles pensam de mim.

Jesus, o “tal” Senhor com quem disse que eu andava, não precisava ser reconhecido pelas pessoas com quem andava, com aqueles que diziam amá-lo, ou mesmo seus inimigos: ao diabo, recusou revelar-se quando desafiado a saltar do alto de um pináculo, aos fariseus que o esbofeteavam, não disse palavra, assim como se calou diante de Pôncio ou Herodes. Diante de seus discípulos perguntou quem era, e só confirmou aquilo que o próprio Espírito revelara a Pedro.

Ele tinha seu testemunho, guardado no dia em que se batizou: “Esse é meu filho amado, em que me comprazo” disse a voz do próprio Deus, para quem estivesse ali para ouvir. Era o reconhecimento suficiente que precisava.

Era necessário o testemunho de mais alguém?

O que nos cabe é ouvir a opinião de quem realmente interessa, e Nele, ser transformado segundo Seu propósito, e não, ele não tem grandes interesse em me encaixar em cultos neurotizantes, que não priorizam aquilo que transforma o homem: ouvir a Palavra Dele.

A propósito: quando pessoas “ímpias” precisam saber sobre a Palavra, não procura-os: são inacessíveis, santos demais, esquisitices demais, não conseguem responder questões simples, mas muitos dos que são bem intencionados não desperdiçam o momento para tentar fazer um neófito, e arrastá-lo para o culto de sua comunidade “que fará coisas tremendas”.

Se alguém topa a estratégia? Funciona bem entre testemunhas de Jeová, mormons, nos centros de Umbanda, cartomantes, nas Raves, nos bares, prostíbulos, na propagação do uso da droga: a propaganda é a alma do negócio, por que não copiar o sistema de franquia.

Mas eles só queriam a resposta que a bíblia responde, e não se associar a um grupo que te ensinará a associar novos membros, inchando aquela comunidade de gente que – como ele - não conhece bíblia, mas só tem elogios – vazios - para o Senhor. Mas mesmo assim, seguirão sem resposta.

O que interessa é a opinião de meu redentor, apesar de ser esse cristão confuso segundo o conceito de quem, sendo crente convicto, teria que me amar mas não o faz. Ser dessa forma -lesadamente - gentil me faria sentir-se hipócrita, aquela coisa de ter uma máscara para cada ocasião, que não convém aos discípulos do Mestre.

A propósito: eis um rótulo que não recebo. E você, que anda dentro dos conformes e da lei, dentro do vocabulário certo e a oração certa: Qual a opinião de Deus sobre você?

5 comentários:

  1. Olá, Zé!
    É a primeira vez que comento aqui, mas sou leitora há algum tempo já, e comecei a ler seu blog justamente porque me sinto, há algum tempo, uma "cristã confusa".

    Me converti há uns 7 anos numa igreja Batista e não me sentia confusa na época e por uns anos permaneci assim, como a maioria dos crentes são (só não abri mão do heavy metal, mas de resto... falava e agia como uma "boa crente") só que eu me mudei de cidade e não "membrei" em nenhuma igreja na minha nova cidade e foi quando passei a buscar a Deus mais do meu jeito, na minha casa e apenas com alguns amigos pra orar e cantar junto. E foi quando eu comecei a ver que "a coisa não é bem assim", como ensinam na igreja. Muita coisa que tem na igreja não tem na bíblia, e foi diminuindo minha vontade de ir aos cultos e aumentando minha leitura de bíblia. Isso porque na maioria dos cultos que visitava me sentia numa grande festa e não num serviço a Deus. Enfim, resultado: hoje eu fico exatamente como você relatou no texto acima. Até foi por isso que eu tomei a liberdade de tomar seu tempo contando da minha vida, porque eu me sinto sozinha e como você aqui tocou no assunto, vim desabafar =D

    Há algum tempo venho tomando coragem pra começar um blog, pra contar sobre me sentir assim e ver se acabo achando mais gente como eu por aí.

    Zé, parabéns pelo modo como você escreve, sóbrio e direto sem ser simplista demais. E obrigada por compartilhar suas experiências confusas. Faz a gente se sentir, de algum modo, menos sozinho.

    ResponderExcluir
  2. Bom, primeiro era somente o Zé Luis, depois veio Leilane e agora eu, pois bem já não estamos mais sozinhos... rsrs

    Esse negócio de crente que não anda mas flutua é uma coisa complicada e tão frequente me parece que conversam sempre querendo imitar a Valadão... rs

    Eu não consigo e nem quero ser uma santa inacessível mesmo qd tem muitas que acham q devo ser por ser esposa de pastor (q peso... rs)

    Los hermanos ficam exigindo uma esposa de pastor mais santa, que sempre vai a tdas as programações da igreja (ela não pode faltar nem em chuva de canivete, mas eles podem por qq coisa, é claro neh), a esposa do pastor, a coitada q nem nome tem, tem q saber tocar, cantar, sapatear, pregar, despregar, ouvir os desaforos e sempre com um belo sorriso no rosto, pois afinal é esposa de pastor...

    Isso cansa, e muito, eu sou eu, tbm mtas vezes uma cristã confusa, tenho carne, osso, sentimentos, algumas habilidades, outras não, tenho meu próprio jeito de falar, de andar, ainda prosseguindo para o Alvo,eu sou eu afinal... Ainda com imperfeições não adianta eu querer me mostrar perfeita e santarrona, sempre falandos os jargões gospels...

    É acho q não me encaixo nos "padrões" das 4 paredes da igreja,mas o que me interessa é me encaixar nos Padrões do Oleiro, do Dono das poderosas mãos transformadoras e me mostrar verdadeira para Ele

    ResponderExcluir
  3. Caro Zé
    O texto reflete muito, e de uma maneira incrível em todos os pontos, a minha opinião/ fatos e sentimentos a respeito do assunto. Obrigado por me fazer sentir que não estou sozinha nessa.
    "O que interessa é a opinião de meu redentor"

    "Tamu junto"
    Ju

    ResponderExcluir
  4. Gente.

    É gratificante ler esses comentários.

    Valeu mesmo.

    ResponderExcluir