20 de agosto de 2012

Ainda sobre armaduras e falta de dizer o óbvio

por Zé Luís

Para os dias em que a lucidez se impõe e temos que olhar para existência com um pouco mais de coragem:

O que não nos falta hoje, sejam em reflexões, estudos e detalhamentos, são informações sobre a analogia que o apóstolo Paulo faz com as necessidades para a caminhada cristã e os elementos de uma armadura de um soldado romano, através de carta ao grupo de seguidores de Cristo residentes à cidade de Éfeso,

Cada correlação com o elmo, a proteção torácica, as sandálias, o escudo, a espada, o cinturão: tudo se transforma em longa e detalhada explanação e acaba por omitir o dado mais precioso, e óbvio. Mesmo assim, talvez você nem acredite, revire os olhos, ignore o resto do que está sendo explanado. Natural... enfim:

Todos, sem exceção, estamos envolvidos em uma guerra desumana. Por que razão nos sugeriria Deus o uso de um artefato de guerra? Uma armadura?

Talvez a devastação das sangrentas batalhas ainda não atingiram o território do tempo de sua existência, ou ainda vivamos em um mundo ilusório sem estilhaços dos ataques, mas esse dia chega para todos, os que confessam a Cristo e os que simplesmente em nada creem.

A raça humana se prolifera inexplicavelmente pela terra, precária, insuficiente para tentar entender em tempo como existir satisfatoriamente nesse mundo, por mais que tudo em nós, crente ou não, aponte para impraticáveis caminhos de esperança. E mesmo nessa proliferação, nessa inevitável multiplicação de ciências, não conseguimos aprender por nós mesmos o segredo de uma vida plena. Escrevam livros, manuais, mapas. Nada. A conquista será às cegas, e através de um Ser invisível e para muitos, imaginário.

Nossa grande artimanha – e simultaneamente, inexplicável imbecilidade - é fingir que nada acontece, que os estrondos e clamores de dor estão ecoando tão longe que jamais nos atingirão, e prosseguimos, almas protegidas em paredes de papelão, dando continuidade em nossos planos para dominar nosso pequeno gueto, vencer entre nossas picuinhas e mesquinharias. Vemos a tempestade se desenhar no horizonte, mas e daí? A esperança de que a inevitável tormenta não nos atinja persiste... mas meu amigo: sabe o significado da palavra “inevitável”?

Certa vez, bateram nas portas de sua consciência, deixaram instruções de como lidar com essas situações vindouras, e entre elas, dicas de como manejar armaduras e espadas, como caminhar e se proteger, golpear, a esgrima, a dança para vencer o inferno.

Nunca se perguntou o motivo de te oferecerem uma armadura tão completa, e o manual de como usá-la? Da insistência em dizer que existe um lugar em nós que precisa ser protegido?

E antes que alguém se aventure a imaginar em se explodir com dinamites em alguma Jihad: é de bom grado que se compreenda que “nossa luta na verdade não é contra a carne ou sangue”. Não será esbofeteando os que blasfemam ou duvidam, será olhando para dentro de si mesmo, e esgrimando contra o velho homem que julgou estar vencido ainda nessa existência.

As angustias ocorrem dentro, e não fora. As tristezas nos atingem a alma, e nunca os bens. Por mais que se tenham certezas e convicções, o adeus – e a ânsia desse fim - não tem remédios naturais. Uma tonelada de ouro só consola a tristeza de uma perda quando o que se perdeu não era realmente amado. E se você não ama, está morto.

E se morreu, não soube usar a armadura, perece cego, mais uma vítima da própria teimosia, na guerra que insistiu em ignorar, mas não te poupou por isso.

Mas ainda está em tempo. Assuma sua posição, prepare-se para luta, vigie seu território, caminhe entre os que lutam.

E se vocẽ vier a tombar entre aqueles que guerreiam: morrerá um guerreiro, e não uma vítima cega.

Baseado em Efésios 6, 13-17



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