28 de fevereiro de 2017

Bandido bom

Hélio: Assim chamaremos meu ex-aluno de escola bíblica dominical.

Tive raiva de Hélio durante certo tempo. Não por ter sido um adolescente difícil. Não é isso.

Criado sozinho pela mãe evangélica do círculo de oração, era silencioso e observador. Sempre pareceu incomodado quando se descontrolava e desatava a gargalhar por causa das imbecilidades que eu usava durante as aulas, para ilustrar essa ou aquela passagem bíblica, ou situações absurdas de nosso convívio de crente.

Ajudei a alfabetiza-lo quando já passava dos quatorze, e ele nunca faltava na escolinha da igreja dominical, assim como sempre ia em casa falar sobre dos livros que começou a ler freneticamente. Amou C.S. Lewis logo após a aula onde eu explanei sobre quem era Aslam e que mundo era aquele leão havia criado – muito antes da Disney imaginar em produzir a série.

Ele cresceu – muito -  e chegou o tempo onde ele deveria escolher com quem queria se socializar, e como ali na comunidade local não havia tantas opções, o caminho da droga para quem não tem escolaridade acabou oferecendo mais atrativos e engolindo-o como a única opção financeira válida (para ele). Se afastou do grupo. A mãe dele sempre pediu ajuda em oração pelo filho – que levava essa vida às escondidas - que prometia dar a ela “através do seu trabalho” todo o conforto que o pai deixou de dar.

Não demorou e ele começou a usar o produto que deveria vender, e então a dívida com o tráfico fez ele ser marcado para morrer. Não tinha nem vinte anos quando a mãe entrou na boca de fumo e negociou a vida do filho -  que já estava amarrado literalmente - com o gerente da “biqueira”. A crente conseguiu. Não sei bem o que ela precisou vender em casa para pagar, já que a casa de tres comodos onde vivia com mais uma filha não tinha muito a oferecer.

Hélio foi para casa, voltou a frequentar a igreja, arrumou uma namoradinha, e começou a tocar bateria em alguns cultos.

Um dia descobri que ele, que havia se tornado uma celebridade por seu testemunho, colocava em dúvida minha vida intima e moral, e que meus alunos – entre eles, meus filhos – começavam a me olhar de forma diferente. Eu era realmente honesto em minha relação com minha esposa?

O menino que deu testemunho de livramento da morte na igreja, criado junto com meus garotos, agora colocava minha vida numa fofoca que poderia atingir meu casamento.

Nunca tive vontade ou disposição de ir tirar satisfação sobre o assunto. A tristeza e a decepção foram maiores, a ponto de roubar de mim a vontade de continuar falando sobre as coisas do Reino para adolescentes e jovens. Ele era uma das crianças que eu mais amei ensinar. Aquela era minha paga.
Aproveitei que meu trabalho oferecia essa opção e mantive então certa distância de todos.

Nunca deixei de ouvir histórias sobre ele, mesmo quando tornou a se afastar novamente do convívio dos “irmãos”. Um dos meus filhos o amava, e sempre tentava manter contato, apesar do reingresso na vida do crime, das surras que dava na namorada para conseguir mais dinheiro para comprar droga, das coisas que furtava da casa da mãe para o mesmo fim, e por fim, da prisão em flagrante por venda de droga, agora com quase trinta anos.

Pensei na ineficácia do que preguei e de como tentei mostrar a Graça contida nas Escrituras, das orações da mãe que nunca cessaram, do amor dos amigos que sempre tentaram manter – na medida do possível - proximidade (entenda que na vida do crime andar na linha é muito mais necessário do que fora: ofender a mãe não é como chatear o gerente do tráfico, e habitualmente, quando o castigo chega para o ofensor, habitualmente quem está junto tem que ser eliminado, para não haver testemunhas).

Hoje, a mãe sempre chega atrasada nos cultos de domingo: nunca deixa de visitar o filho na cadeia, e o que ele só pede uma coisa: livros.

Hélio, meu ex-aluno, criado com meus filhos, é oficialmente bandido.

Recentemente, ouvi algo da mãe dele em uma conversa entre irmãos: os outros bandidos souberam que ele sabia ler, que conhecia livros, e que sabia – além de ler! - Interpretar trechos confusos da bíblia. Isso fazia com que vários encarcerados o procurassem - com a bíblia na mão - para falar sobre o que Jesus queria dizer realmente naqueles trechos. É bom lembrar que muitos dos detentos são filhos de evangélicos.

Ele ensina o que aprendeu nas aulas de uma sala abafada, sem janelas, de seis metros quadrados, quando não tinha nem quinze anos. Explana para sujeitos que mataram, traficaram, roubaram, e que muitos queriam que estivessem mortos. São descartáveis e possivelmente serão enterrados em alguma vala comum mais dia, menos dia

Aquele menino que virou bandido, traficante, passa o tempo de prisão falando sobre o que aprendeu sobre a caminhada de Jesus na Terra para gente condenada como ele. Além disso, a mãe de Hélio ainda conversa com os “meninos” presos, já que a imensa maioria foi abandonada pela família, conforme avisado que fariam quando ingressaram no crime. Passam seus meses apenas na companhia dos outros detentos.

Ouvi isso e após meses, sem o mínimo de vontade de escrever, voltei até aqui nesse espasmo: a comunidade cristã brasileira vem se tornando cada vez mais escrota, e irreconhecível, se comparada ao que me evangelizou a mais de duas décadas passadas. A internet deu voz a todo tipo de gente que se acha mestre, que se sente especialista do assunto que pesquisou por nem trinta minutos, e segue agredindo, xingando, aplaudindo imbecis, no que a manada grita na moda.

Esse era um motivo.

Mas além disso, tinha esse ex-aluno que denunciava em sua história a certeza da minha grande inutilidade em querer falar sobre assuntos "espirituais" que pareciam não surtir efeito realmente eficaz em uma alma.

Agora, a culpa parece vir me rondar: parar de ensinar não poderia ter sido uma opção, já que eu não sabia para quando – e se - aquilo poderia ser usado. Eu não sei o tempo das coisas que Ele programa usar ou mesmo se aquilo será usado da forma que apresentado. Claro que ninguém consegue sondar Seus caminhos. Eu deveria apenas fazer o que minha alma me mandava fazer.

Meu consolo é saber que o Senhor também conhece a fragilidade de meu coração, e que jamais esconderia Dele – mesmo que fosse possível – a dor que me tomou por tanto tempo. Compreendo a necessidade de perdoar cada dia mais.

Feliz por Helio estar levando Cristo para bandidos na cadeia. Em breve, quem sabe, teremos irmãos detentos povoando o céu do lado de gente que os odeia.

Ironias.