29 de outubro de 2009

Quando MInha Fé Acabou(2)


Crente 2D

- Fé que é fé não se acaba! - gritaria um fundamentalista religioso (palavra que detesto).
Mas acabou.
O que eu tinha agora eram resquícios, fragmentos do naufrágio de minha alma, parafraseando Chesterton.
Procurava evidências aqui e ali, mas o argumento ateu parecia definitivo. Logicamente, procurei pessoas na mesma situação em que me encontrava, mas havia a nítida impressão de que eles fingiam que acreditavam, e que essa farsa deveria continuar em suas vidas. Como eu, tratavam o pensamento cético como uma espécie de gripe, mas a minha parecia estar se tornando uma “suína” terminal.
Embora amigos virtuais me ajudassem muito (mesmo sem saber – creio eu – da minha situação espiritual) fui sentindo a descrença crescer, o que aumentava quando entrava na discussão um crente “2D”, como diz Philip Yancey. Ele conta que gasta horas tentando criar um personagem "3D", convincente, que não seja dotado apenas de chavões e lugares comuns em seus pensamentos, mas ao sair de sua casa e ir até um café, viu que as pessoas, em sua maioria, só usam frases feitas e chavões dos mais surrados entre os seus, fazendo retornar para seus escritos, onde o mundo é muito mais real.

Crente “2D” é uma tragédia: Tem a disposição toda uma longa lista de informações, livros e mais livros para enriquecer o Espirito que nele habita, mas sua teologia se resume em “caixinhas de promessa” e letras das músicas evangélicas que decorou em sua igreja, dando a impressão que a “vida em abundância” se resume a estas “coisas”.

Procurava fatos que calassem em definitivo a voz atéia que crescia dentro e fora de mim, mas num comentário no divertido e acido grupo de “evangélicos” li pela milésima vez, mas agora, de um ângulo desconhecido em minha alma:
“Se você precisa de fatos, não precisa de Fé. Os fatos dispensam a Fé.”
“Fé é o firme fundamento das coisas que NÃO se vêem...”

Naquele dia fui para casa, e sem tocar no assunto, esperei minha família dormir. Fui a sala, e de joelhos, comecei mais uma das minhas brevíssimas orações:
“Não importa se “Você” esta aí...Não importa se o Senhor esta aí...Eu escolho crêr, e não me importo se isso não me levar a nada. Eu declaro que creio...”
Nestas alturas, meu rosto já estava encharcado de lágrimas.
Imediatamente, na escuridão da madrugada, pensamentos me inundaram: Todo o silêncio da minha alma, após meses batendo nas mudas portas do céu, foi interrompido.
Lembrei-me, sem acusações, das coisas que vivenciei quando criança e mocidade dentro do Centro de Umbanda que minha mãe dirige até hoje, e como coisas inexplicáveis acontecem todas as semanas em milhares de locais iguais àquele. Recordei-me das mudanças inexplicáveis dentro dos meus próprios raciocínios, tão diferente dos ralos e pueris pensamentos que valorizava tanto antes da conversão.
Absurdamente me esqueci que fui criado imerso em um mundo de bruxarias e demônios e ousava esquecer que Deus era o Criador destes seres também.
C.S.Lewis escreveu dois livros sobre sofrimento. O primeiro, “O Problema do Sofrimeto”, antes de conhecer Joy, o amor de sua vida. “Anatomia de uma Dor” ele escreveu após a morte dela.
Neste último, revelando-se amargo e sombrio, o ex-ateu declara em suas conclusões:

Deus certamente não estava fazendo uma experiência com minha fé nem com meu amor para provar sua qualidade. Ele já os conhecia muito bem. Eu é que não. Nesse julgamento, ele nos faz ocupar o banco dos réus, o banco das testemunhas e o assento do juiz de uma só vez. Ele sempre soube que meu templo era um castelo de cartas. A única forma de fazer-me compreender o fato foi colocá-lo abaixo.


Levantei-me aquela noite, e minha Fé, aquela que não pode ser mais removida – como afirmam os fundamentalistas religiosos(blargh!)- foi conhecida.
Ela era diferente e desconhecida: me trazia paz, e não espada.
Não havia mais a gana de conhecer tudo sobre o assunto para não ser vencido em debates. Aquele “fiapo” imperceptível de luz que me invadira era capaz de sustentar todo um mundo, e eu estava seguro disso então.
Era o começo de um longo caminho, onde jamais me encaixaria novamente nos contextos e moldes nos quais fui doutrinado.

Zé Luís

7 comentários:

  1. Espero que essas palavras edifiquem outros como eu. Não é raro buscarmos fatos que comprovem nossa fé, sendo que essa fé, pra ser genuína, não deve precisar de fatos. E isso é extraordinário. Isso é loucura.
    E a sanidade do Evangelho, do ser chamado Deus, do mistério da Graça, é loucura aos olhos do mundo.
    De fato, meu amigo, de fato... volto a repetir, desta vez em público: suas palavras, suas dicas, me ajudaram a reencontrar minha fé, aqui nesse finzinho de mundo onde eu estou morando, e onde eu procurava por "igrejas", sem perceber que me faltava era assumir minha posição ao lado de Jesus.
    Eu havia encontrado a porta (...Eu Sou a Porta..) há 30 anos, mas ainda não havia entrado por ela. Obrigado!

    - Claudio Marcio

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  2. É, como eu desconfiava há algum tempo, a Fé é por vezes mesmo uma decisão. O problema é quando só o querer crer não é suficiente...

    Enfim, espero que continue assim, nessa paz que encontrou, eu por exemplo to no outro pólo da minha ainda.

    Leão.

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  3. "Aquele “fiapo” imperceptível de luz que me invadira era capaz de sustentar todo um mundo".

    Quando descobrimos isso vemos o quão pífia e arrogante é a religiosidade. Deus te abençoe sempre!!!

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  4. Interessante teu testemunho, mas infelizmente não me ajudou em nada. Já me ajoelhei e disse que acreditaria mesmo que Deus não estivesse ali, mas não adiantou nada. Já fiz de tudo, até me prostrei e lambi literalmente o chão de um banheiro para ver se Deus me ajudava. Nada. Acho que nesses 20 anos de crente, tenho sido só mesmo um religioso. Hoje mesmo me ajoelhei na rua, desesperado e declarei: Jesus, acabou. Eu desisto de ter fé.

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  5. Anônimo...

    Relaxa? Se você fez uma promessa que creria mesmo que não estivesse, então tudo o que poderia ter sido feito, foi.

    Fazem anos que escrevi isso, quando estava bem seguro que as coisas andariam. É transitório, as vezes gostaria que Ele não existisse.

    Na minha vivência, existe algo que me ajudou: o "Espiritismo". Não da forma que normalmente se é divulgado(mesmo crescendo em um centro de umbanda dos 9 aos 21, experimentando uma série de "coisas" impossíveis a essa realidade).

    Sabe, querido anônimo: compreendo a descrença como um mal que atingirá muitos nesse tempo, devido a forma displicente que o Evangelho está sendo propagado.

    Ter convivido com o diabo (perdoem-me os amigos que andaram comigo, mas temos que ser sinceros: aquelas coisas não fazem a vontade do Pai, independente de sua motivação, não posso crer que são nada mais do que entidades em rebelião) - ajudou a lembrar pelo que vivi. Lembrar que o materialismo pelo materialismo seria burrice da minha parte.

    Falo com o Espírito hoje, e não é uma convivência muito pacífica: Ele não é aquela coisinha tranquila que a gente espera, e nem emotivo como se prega por aí.

    Não espere ter de Deus um sinal dos céus, só porque sua fé acabou. Isso não vai acontecer. Na boa? A gente não merece. Entende isso? O

    Ele tem lá seus propósitos. Pare de se martirizar com isso. Vá viver. Caso Ele queira, segundo seus propósitos, mostrará algo que você consiga entender, daí você abraça - ou não.

    Para de birra... rsrsrsrs

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  6. Os links para esse, e para o artigo "Quando Minha Fé Acabou (1)" que você postou nos comentários do "Perguntas e respostas" não estão muito bem não, para chegar aqui pesquisei no Google. =P

    Do mais, muito bacana o modo como você expõe seu ponto de vista Zé, me alegra imensamente saber que pessoas com esse tipo de pensamento existem. E de verdade, não esperava isso de um blog chamado "cristão-confuso" rsrs Mas ao menos consegui ver isso a tempo! =D

    E poxa vida, você não tem noção do quanto eu ri do cara do "A pior cena de morte de todos os tempos" e, claro, apesar de ter bastante coisa para ler, tipo "Nieszctche, Carl Sagan, Herman Hesse" saca? Vou dar uma vasculhada por cá em busca dos seus textos mais "edificantes" sempre que possível.

    Um abraço, até!

    P.s.: Ajudaria muito se seus posts fossem organizador por categoria (olha que bacana a barra esquerda desse site: http://www.portalcab.com/). No meu caso eu iria direto para os que tem relação com Umbanda e Espiritismo por exemplo (se é que você escreveu alguma coisa sobre...). Porém nada contra o seu "Assuntos". rsrs

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  7. Oi, Lenon.

    Dicas anotadas... só tem um problema: preguiça, um pecado capital confessado assim dói, fere, machuca... rsrsrs

    Por ter uma mãe babalorixá de umbanda, fica complicado por diversas vezes falar sobre o assunto, já que conheço os "dois" lado da moeda.

    Deve ter alguma coisa sim...

    Tentarei me organizar...

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