20 de novembro de 2009

Minha Experiência Pentecostal.


Nota do Editor:
Apesar de existir tantos estudos sobre a não existência de certos dons "carismáticos"( e tantos deturparem essas manifestações), poucos são os que se retratam quando existe autenticidade nestas manifestações. Abaixo, segue relato sobre a experiência de uma manifestação "indesejada" e a forma que isto foi tratado por esta Igreja Histórica:

Quando o avião tocou na pista do aeroporto de Fortaleza e vi correrem os coqueiros que ladeiam o cenário saudando os visitantes da cidade, meu coração acelerou-se. Sentia-me nervoso e muito feliz. Depois de inúmeras viagens à minha terra natal, desta vez eu chegava para pregar no aniversário de minha primeira igreja. Passados mais de vinte e cinco anos depois que me despedi dos meus primeiros parceiros de fé, era recebido como um filho querido. O novo pastor e o conselho da igreja decidaram estabelecer aquela ocasião como uma oportunidade de reconciliação com o passado dolorido. Eu era parte desse passado.

Só posso escrever sobre minha “expulsão” da Igreja Presbiteriana de Fortaleza porque sinto-me curado de qualquer vestígio de amargura daqueles dias traumáticos em que nos ferimos muito. Hoje escrevo como homem que julga o rapaz que um dia procurou viver sua fé com sinceridade. Percebo que minha imaturidade, somada à paranóia que as igrejas históricas viveram em relação ao movimento pentecostal, trouxeram dor a muita gente. Se eu me feri, com certeza também magoei.

Cri na igreja presbiteriana e nela dei os meus primeiros passos de fé. Freqüentei a escola dominical, envolvi-me com a centenária UMP – União de Moços Presbiteriana - e tornei-me um líder. Ainda engatinhando na fé, percebi que o joio nem sempre é imperceptível no meio do trigo. No primeiro carnaval depois de minha conversão, mesmo a contragosto, fui ao acampamento que acontecia anualmente nessa época do ano. Estarreci-me quando notei, na primeira noite, que alguns jovens saíram para dançar na cidade de Pentecostes (ironia, das ironias). Hpuve uma briga no baile e quase que um dos jovens morreu, ameaçado por um punhal de um assassino profissional. Na manhã seguinte, o grupo de presbíteros escalados para manter a disciplina, soube e, reunindo todos os acampantes, passou uma severa reprimenda. Eu, jovem adolescente e neófito, percebi logo que ser crente não implicava necessariamente viver corretamente.

Só depois de minha profissão de fé e batismo é que exerci cargos na igreja. Enfronhei-me em quase todas as atividades. Tentei cantar no coral (minha Síndrome de Down para a música não permitiu que continuasse), evangelizava nas tarde de domingo, professor de escola dominical em um projeto na favela, e jogava futebol de salão nas tardes de sábado. Exerci praticamente todos os cargos na UMP.

Era um jovem engajado, mas com todas as ambigüidades de um adolescente. Uma boa parte dos outros jovens também vivia as mesmas ambigüidades que eu, com a diferença que eles já eram de berço evangélico. Acostumaram-se de tal maneira aos chavões religiosos que a fé era muito mais uma herança religiosa que um relacionamento vivo com Jesus.

Depois de alguns anos, apesar de manter uma sede de Deus muito real em meu coração, acabei mais religioso que um cristão verdadeiro. O primeiro amor desvaneceu lentamente.

Com dezessete anos de idade, ganhei uma bolsa de estudos para cursar o último ano do High School nos Estados Unidos. Eu estudara inglês no IBEU por seis anos, prestei exames no American Field Service e conquistei o privilégio de estudar numa escola pública americana, residindo com uma família, que ainda hoje guardo em meu peito com as mais doces recordações. Fui morar na casa dos Petersons, que me amaram com um verdadeiro amor.

Estive nos Estados Unidos em 1971 e 1972. Anos conturbados. O movimento hippie ainda florescia, os jovens se drogavam e a guerra do Vietnam causava enormes inquietações entre as famílias que não desejavam que os seus filhos morressem numa guerra estúpida. Os Petersons, bastante engajados politicamente, levaram-me a comícios do McGovern, candidato democrata derrotado por Nixon nas eleições daquela época. Minha mãe americana era também presbiteriana e freqüentava uma igreja muito liberal. Da família só nós dois íamos aos cultos. Mas lá na América não me envolvi de maneira nenhuma com a fé, apenas comparecia desinteressadamente aos cultos e se me lembro bem, de vez em quando.

Na volta dos Estados Unidos, havia experimentado maconha e me embriagado em festas da escola, ao ponto de perder a consciência umas três vezes. Agora sim, eu era um cristão nominal. Minha fé e meu compromisso com Cristo definharam. Reencontrei muitos dos meus amigos vivendo no mesmo estado que eu. Éramos bons meninos, mas não sobravam resquícios de vida cristã.

Quantas vezes participamos de eventos na igreja e depois divertíamo-nos em lugares de prostituição. Quantas vezes organizamos torneios de esporte da igreja, para terminar em socos e pontapés. Quantas vezes, enquanto trabalhávamos em uma programação da UMP, a rapaziada se trancava no banheiro para fumar. Pateticamente arrastávamos nossos pés espirituais, indo para lugar nenhum. Não consigo lembrar nenhum sermão daqueles dias. Tudo era um ritual morto, mantínhamos apenas uma profunda amizade. Formávamos uma fraternidade e só. Comecei a namorar uma moça Batista e me apaixonei por ela. Passeávamos e curtíamos a vida sem muita preocupação com Deus. Eu me afastava perigosamente de um ponto sem retorno.

Nesse tempo, o Marcus Aurélio se converteu em uma reunião da Aliança Bíblica Universitária. Intriguei-me quando o vi de Bíblia na mão, discutindo assuntos da fé, querendo saber mais e empolgado com Jesus, como eu nunca vira ninguém. Ele passava horas conversando o irmão Custódio, o zelador da igreja que era um santo homem de Deus. Interessei-me por saber o que lhe acontecera. Contou-me o seu testemunho. Ali nasceu um desejo muito angustiado de retomar meu relacionamento com Deus. Tempestivamente propus ao Custódio e Marcus orarmos todos os dias às 6 da tarde com o objetivo de Deus reavivar nossa mocidade.

Começamos com apenas cinco pessoas. Todos os dias saia do meu emprego e antes de ir para a faculdade, passava na igreja e orava por uma hora. O grupo aumentou gradativamente e as orações se alongavam mais e mais. Começamos com os sessenta minutos, mas não raro terminarmos à meia-noite. Eu não podia mais ficar, meu empenho em orar me prejudicava na faculdade. Saia e o grupo continuava orando. Numa determinada noite, bateram na porta da sala de aula. O professor me chamou com os olhos arregalados. O grupo queria falar comigo do lado de fora, todos aos prantos. Relataram que, enquanto clamavam, ouviu-se uma forte pancada na igreja como se alguém estivesse saindo batendo a porta com muita, mas muita força mesmo. O Custódio subiu correndo e nada viu, voltou e estimulou a continuarem orando. Naquele momento a presença de Deus se manifestou e vários jovens começaram a chorar. Impensável entre presbiterianos: o choro era uma novidade inédita. E mais, os lábios de alguns tremeram a ponto de não poderem pronunciar palavra alguma.

Apavorados, me procuravam buscando saber o que lhes acontecera. Queriam entender que barulho fora aquele e por que choraram tanto. Eu, um líder improvisado, também não possuía respostas. Pedi licença, peguei meus livros e voltamos para o lugar de oração. Oramos mais pedindo agora explicações a Deus. Nada, absolutamente nada nos aconteceu. Nem choro nem pancadas fortes.

Lembrei que o presidente da ABU, o Ademir Siqueira, estudante de medicina, pertencia a uma igreja pentecostal. Certamente nos ajudaria com algumas explicações. Já de madrugada partimos rumo à sua residência. Seu pai, pastor da Assembléia de Deus, solicito, nos atendeu , avisou-nos que o filho dormia e não o importunaria. Mas pediria que nos telefonasse no dia seguinte.

Relatei ao Ademir o que acontecera ao grupo. Calmo e sorridente me afirmou que poderia se reunir conosco e falar sobre o Batismo no Espírito Santo. "Jesus prometeu que aquela experiência dos apóstolos no dia de Pentecostes não seria só deles, mas de todos os que cressem", afirmou prometendo ensinar mais sobre o assunto. Marcamos um culto de vigília na própria igreja Assembléia de Deus com as portas trancadas. Ninguém mais seria convidado. Naquela noite no debruçamos sobre a Bíblia e entendemos que Deus desejava nos renovar com o seu Espírito. Poderíamos ser tão cheios de sua glória que nossas línguas extravasariam com gemidos inexprimíveis.

Dito e feito. Chovia muito e eu, de joelhos, pedi a Deus que assim como a chuva caía sobre o teto da igreja, ele se derramasse sobre minha vida. Senti meu corpo tomado pelo Espírito de Deus e já não pronunciava palavra alguma. Sons ininteligíveis fluíam de mim como um rio jorrando em forma de alegria, compromisso, temor e amor. Vários outros jovens também foram tomados pela mesma experiência, inclusive aquela que seria minha futura mulher, a Silvia Geruza.

Saímos dali para uma nova fase. Agora, queríamos evangelizar. Pregar em praças públicas era uma obsessão. Adaptei o meu Fusca com um sistema de som a bateria. Convocava outros jovens para fazermos a obra de Deus. Comecei a chamar alguns amigos de UMP, que conhecia dos bastidores e os conhecia a frieza espiritual. Iguais a mim, viviam uma vida dupla. Entendo hoje que devo ter sido agressivo demais. Principalmente porque alguns deles pertenciam a famílias tradicionais e eu passava a idéia que eles estavam desviados. Mexi em vespeiro.

Logo correu a notícia que éramos “renovados”. O Movimento de Renovação dividia muitas igrejas pelo sul do Brasil e, para alguns, nossa intenção só podia ser dividir. Falava-se abertamente que nossas reuniões pareciam sessão de macumba. Criou-se a celeuma. A corda se quebraria na parte mais fraca.

Eu e o Marcos fomos convocados a comparecer diante do Conselho da Igreja. O pastor avisou-nos que em vista do que acontecia, precisaríamos fazer uma nova profissão de fé. Um presbítero mais exaltado pediu nossa exclusão sumária, citando um artigo da Constituição da Igreja Presbiteriana. Achava desnecessário que a nossa profissão de fé fosse refeita uma segunda vez. Queria excluir de qualquer maneira. Quando o pastor leu o artigo da Constituição, ficou triste: Seríamos excluídos por pecado.

Gastaram mais de quatro horas de reunião para decidir como sairíamos. Já por volta de uma hora da madrugada, um presbítero pediu: “Pelo amor de Deus e em nome do bom senso, saiam. Vocês não percebem que já não são mais bem vindos entre nós?”

Chorando, eu me rendi. Tranqüilizei a todos que formalizaria meu pedido de exclusão da igreja através de uma carta encaminhada ao Conselho no outro dia. Assim, cabisbaixo e triste, sai de minha primeira igreja.

Já éramos um grupo com mais de quarenta jovens que se reuniam para orar diariamente. Naquele dia de nossa saída da igreja, completávamos nove meses de oração.

Sem ter para onde ir, nos reunimos em escritórios emprestados, praias e praças. Mas continuamos orando e evangelizando. Precisávamos decidir o que fazer com tantos jovens sem igreja. O grupo rachou. Uma parte decidiu fundar uma igreja (que hoje é a igreja Peniel em Fortaleza) e a outra desejava ir para igrejas evangélicas já existentes na cidade. Eu e o Marcus fomos para a Assembléia de Deus, outros foram para a Igreja Metodista e alguns se filiaram a Igreja de Cristo.

Quatro meses depois que me filiei à Assembléia de Deus, voltei para os Estados Unidos. Sentia-me vocacionado para o ministério. Precisava estudar teologia. Tranquei minha matrícula na faculdade de Administração de Empresas e comecei meus estudos no Gênesis Training Center.

Meus primeiros passos teológicos eu conto depois.

Fonte: Ricardo Gondim