7 de janeiro de 2010

Dentro e Fora da Centrífuga - A Dor dos que Ficam

Zé Luís


Vendo entrevista em cadeia nacional, através da TV Bandeirantes, via o pronunciamento do pai de uma das vítimas dos deslizamentos de terra em Angra dos Reis, ocasionado poucas horas após a passagem de ano.

Ele contava que aqueles imóveis não eram habitados mais que dez dias em um ano inteiro.

Impossível não pensar que aquilo não foi apenas uma fatalidade. Não estou aqui afirmando que tenha sido um crime, que um ser humano conseguiu deslocar toda aquela massa de terra, pedra e mato e lançar sobre tantos inocentes, quando dormiam felizes em um - até então - paraíso, após comemorar o Réveillon.

Não demorou muito para pessoas como Pastor Ricardo Gondim (pregador admirável) apressarem-se a reafirmar a impotência de Deus em relação a desastres naturais como este (o que chamam de Teísmo Aberto). Logo, na mesma velocidade, o foco deu uma guinada entre os estudantes da Palavra, e esquecendo os corpos e a dor dos parentes, passaram a discutir sobre os limites da Soberania Divina.

Também surgem aquelas declarações clássicas sobre "o-plano-de-Deus-em-todas-as-situações", e de como devemos nos conformar, mas nesta hora, existem dois pontos de vista:
-Os que estão vendo a centrifuga do lado de fora.
-Os que estão dentro do turbilhão da centrifuga.

A ínfima minoria que se desespera diante da morte inesperada, prematura, repentina.
E a imensa maioria que reduz a velocidade de seu passeio para ver os restos mortais em um trágico acidente na estrada, que não consegue deixar a curiosidade mórbida ao ver imagens de gente dilacerada, de sangue espalhado na calçada.

Essa maioria que se alterna com a minoria, quando as desgraças da vida repentinamente os alcançam, quando são eles que são velados.

Tentar manter a sobriedade entre o que se desespera e o que tenta consolar, ou explicar o humanamente inconcebível não é tarefa para muitos. Uma questão grita em nosso alma de cristão - confuso? - que tenta entender o seguinte:

Ao que se deve tamanha coincidência, se coincidências não são muito bem aceitas entre os que creem em Deus? Imagine: Em 98% do ano, a casa estava desocupada. A coisa aconteceu nos "2%" onde quase todos estavam dorminho.(Curiosamente, uma das poucas sobreviventes se salvou por ter levantando na madrugara para "rezar").

Uma pista:
Certa vez os discípulos questionaram o porque do mal sobrevir sobre os homens. Jesus, comentou sobre a queda de uma torre em construção que matara vários operários, e disse: "Mal pior pode sobrevir. Muito pior..."

A morte não é a pior das tragédias para quem VAI. Logicamente, todos se assustam com ela, mas Jesus a encara da mesma forma que encarou o mar bravio da Galileia: algo superável, transitório, como o trauma do nascimento.
O que faz com que Ele sofra não é a morte de Lázaro, mas a dor de seus familiares. Para o Cristo, a morte não é nada, mas a lágrima do que fica o comove. Certamente, creio que poderia ressuscitar todos a cada lágrima, mas logo, como no "As Intermitências da Morte" de Saramago, ansiaríamos pela morte de muitos, já que no fundo, sabemos o tempo de cada um chega, apesar da imensa dor que isso causa.

Mas aquele momento é para chorar com a minoria que chora, embora saibam em breve, que o "bicho" não é tão frio assim.

Que me apedrejem os que defendem a inexistência de vida após a morte, sejam ateus, sejam aniquilacionistas. Não sou espírita. Simplesmente, em algum lugar após meu fim, creio que voltaremos a existir, pensar, de uma forma que nenhum olho viu, ou mesmo imaginou que seria.

2 comentários:

  1. Muito bom.
    É muito difícil falar daquela tragédia sem ser óbvio. E o seu texto é bem reconfortante.

    =]

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