28 de junho de 2010

Conteúdo adulto

Por Zé Luís

Eis aí um conjunto de palavras capaz de gerar nas pessoas os mais diversos comportamentos:

“Esse conteúdo contém cenas de violência, sexo, nudez...”
“O que vai nesse pacote é algo que crianças não devem assimilar... ainda...”
“ Será que é daqueles conteúdos proibidos em diversos países?”
“Sou crente: não devo absolver este tipo de porcaria...”

Quando garoto, em um Brasil que ainda vivia as imposições da Ditadura, víamos antes de qualquer programação, uma espécie de certificado na tela da TV, com uma voz de rádio AM, informando a faixa etária para qual a programação era veiculada.

A molecada se divertia com uma série de filmes que passava nas madrugadas de sábado, chamada “Sala Especial”, com filmes brasileiros horríveis, mas com a grande chance de exibir rapidamente um ou dois seios. Só maiores de dezoito podiam ver aquilo. Eram os anos 70,

Pouco mais de trinta anos se passaram, e o conteúdo adulto permitido mudou:

Qualquer criança acessa pornografia do tipo que for, seja nudez, sexo entre héteros, homos, animais, objetos, seja com desejo, dor, raiva ou seja lá o que uma mente possa dar vazão. Isso quando essas mesmas crianças não acabam por fazer parte deste material pornô, com gente culta e respeitável.

Aquelas cenas de violência onde o sujeito nitidamente pulava morto antes do tiro ser disparado (e só vistas nas altas madrugadas) deram lugar à necrópsias detalhadas na hora da jantar. Diversas séries trabalham o perfil psicológico de assassinos seriais, e alguns ganham até devotos dos mais sinceros. Onde o sangue espirra? Qual o melhor produto para que ele não deixe o DNA reconhecível? Como esconder um cadáver?

Com nossos padrões morais e éticos gradativamente deturpados, nossas histórias – sejam filmes, novelas, séries, comédia ou drama – estão sempre recheadas de adultérios aceitáveis, mentiras em forma de piadas, tudo em nome da liberdade, seja lá que liberdade é essa.

Mas desta bagunça toda que nossos olhos e ouvidos consomem, sempre me admiro com a postura de muitos cristãos: totalmente infantis na forma de encarar essas situações. Justo quem deveria er uma postura madura se comporta como um bebê assustado.

É louvável que um cristão tente se manter limpo destas "conatminações", mas isso não lhe dá o direito de comportar-se como uma desavisada criança.

A bíblia em si é, na maioria das vezes, é de conteúdo adulto:

Jesus não morre com pouco sofrimento, e a humilhação moral a qual foi submetido (incluindo morrer nu em público – não havia aquela fralda na cruz) nos é uma imagem tão forte que não houve filme que teve a coragem de retratar tal cena. Entre gente desgraçadamente leprosa, loucos, endemoniados, doentes de todas as pestes, o mal cheiro dos esgotos abertos, os dentes mal cuidados. Cenas dignas de um C.S.I.

O estupro de Diná, e o assassinato de seus algozes por seus irmãos, os filhos de Jacó, quando eles estavam acamados por conta das dores de sua recém-circuncisão(o corte de parte da pele do pênis) não é uma cena chocante?

Judá transa com a nora, pensando ser uma prostituta, e acaba por engravida-la, tendo neste bebê, Perez, da descendência de Cristo. Não parece porno-chanchada?

Davi engravida a mulher de seu “funcionário”, e ao descobrir isso, manda colocar-lo numa posição para morrer em batalha, mesmo quando ele demonstra ser um seguidor fiel, que daria a vida por seu Rei. Que trama terrível, digna de um seriado a la "Dallas" ou "Pássaros Feridos".

Ser prostituta naquela época, onde não haviam ginecologistas, higiene, um chuveiro descente, ou mesmo o senso de quantos homens elas podiam ter por dia, podia ser uma das cenas mais asquerosas (ou desejáveis na visão de alguns). E a bíblia apresenta várias, incluindo Raabe, que casa com um judeu da linhagem de Perez e, consequentemente, da de Jesus.

A descrição vista em Cantares de Salomão é de uma relação sexual voluptuosa e encharcada de desejo.

Deus nos quer adultos, maduros, gente que tem equilíbrio para lidar com estas coisas. Não nos oculta nada.

Pode acontecer de gente escolhida ter nos recantos de sua alma, coisas dessas mofando debaixo do colchão: uma vontade imperdoável de Cain em suas unhas, aquela curiosidade mórbida por contemplar destroços humanos em ferragens de um acidente, ou a necessidade de vislumbrar a nudez alheia em situações das mais bizarras.

Nos envergonhamos com a nossa inabilidade de lidar com essas coisas, esquecendo o quanto isso é visto por Aquele que vê todas as coisas, o tempo todo, pelos séculos dos séculos.

Isso tudo não é algo para os maiores de 18, 21, 30 ou meio século. Creio que nos falta conteúdo para suportar conteúdos, e Deus sabiamente, nos poupa disso. 

O que me indigna é a forma mística-infantil que tantos “ adultos” passam a encarar estas coisas, a ponto de fazer disso sua teo-filosofia de massas, e tenta nos convencer que é esta a forma cristã para lidar com essa ou aquela situação “imoral”, ocultando sua formação, titalmente pessoal, que o levou a concluir aquele comportamento.

Por que a MULTIforme Graça de Deus seria UNIforme quando a mente humana se fragmenta em diversos cacos ao se formar, e aquilo que é monstro para mim para o outro é belo. Por isso, a necessidade deste Deus que habita em cada um, o Emanuel, conosco.

Alguém que possui conteúdo adulto jamais se impressionará com os alertas de Conteúdo adulto: aprende  - as vezes a duras penas - a distinguir o que edifica ou não, e deve aprender que certas curiosidades podem ser brechas a serem corrigidas, ou mesmo ferramentas a serem usadas pelo Mestre na conclusão do projeto que Ele tem para cada um.