4 de maio de 2011

No refeitório

por Zé Luís

O assunto corria na mesa ao lado, no burburinho do refeitório da empresa, onde o grupo do mesmo departamento ajuntara-se aleatoriamente para o almoço. Tenho um bom tempo de casa e sei das histórias de vida de alguns dos que ali trabalham. Pena que nem todos os presentes naquela refeição sabiam. Teria evitado o constrangimento do “evangelista”.

Acho que se referiam a minha pessoa quando comecei a prestar atenção na conversa:
-Ele nem parece crente, ele é tão brincalhão, é tão atípico... - disse a moça, rindo-se de algo que comentara antes, algo sobre a forma que o tal sujeito abordava as provocações “mundanas”, sem escândalos ou sermões morais.
-Ele é bacana... essa igreja dele que deve ter o tornado assim. Dizem que já deu até aula de escola bíblica. Dá pra acreditar? Não consigo imaginar um cara desses dando aula na minha igreja... - comentou o moço, com um tom mais sério.
-Eu gostava muito de frequentar a escola bíblica. Era tão legal...

O rapaz estancou. Ela também não parecia um modelo cristão para ele, suas roupas, trejeitos, vocabulário meio chulo. Percebia certa malicia quando ela sorria, não parecia ter um mínimo de formação bíblica. Ri-me ao ver ele assumir um ar solene – que não havia até aquele instante – para investir em socorro à pobre alma perdida:
-Você precisa voltar aos caminhos do Senhor, voltar para os braços do Pai. Volte para igreja, Jesus te ama...

A moça soltou aquele seu típico sorriso levemente sarcástico, uma erguida na sobrancelha esquerda, e depois de acabar de mastigar o que estava no garfo, falou como se contasse uma piada:
-Com quinze anos engravidei do meu namoradinho. Era uma igreja batista, fizeram uma espécie de reunião. Naquele dia e diante de todos, fui expulso da comunidade por ter feito sexo, tinha infringido as normas daquela igreja. Morei um tempo com o pai da minha filha, mas apanhava demais, meus pais me acolheram e não pisamos mais em igreja alguma...

O rapaz perdera o rumo, eu ri. Conhecia aquele triste testemunho. Como era de se esperar, ele tentou mais uma previsível investida:
-...mas você não pode deixar que isso afaste você de Deus permanentemente, volta para a igreja...

Após uma breve pausa, a moça o encara:
-Minha filha tem dez anos, daqui a cinco ela terá a mesma idade que eu tinha quando eles mostraram seu amor pela minha vida. Você pode garantir que ela não será humilhada se caso passe pelo que passei? Com licença...

Levantou-se, deixando o moço procurando uma resposta que se resumiu a gaguejos e uma visível sensação de impotência diante daquela situação. Ele poderia prometer que Deus não oscilaria em seu amor. Mas quanto as ovelhas que escolheu para salvar?

Talvez, ser um adorador fora do padrão seja a porta de retorno para aquele que procura o Mestre, mas não suporta ter que lidar com fariseus que se interpõem ao Amor de Jesus. O moço estava fazendo o que lhe fora ensinado, mas a eficácia do script perde o sentido quando existe a pedra da falta de amor na expressão de quem o declara.

Um comentário:

  1. o pergunto, quem está longe "afastado" de Deus afinal?

    que cena....


    beijocas

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