quarta-feira, 1 de junho de 2011

Um elefante incomoda muita gente

Cristão Confuso

por Rodrigo Toledo

Hoje foi um dia como outro qualquer - às vezes, tenho a impressão de que os dias são sempre iguais. O sofá estava afastado da parede e, introvertidamente, deitei no chão entre o sofá e a parede. Fechei os olhos e... resolvi bater um papo com o meu passado. Foi uma conversa árida, sombria, sem sabor, sem cor, dolorida.

Meu passado lançou-me na face coisas que fiz - das quais não me orgulho nem um pouco -, pessoas que decepcionei; gente que deixei de ajudar. Não consegui ser um bom filho para meus pais; destruí a paz de minha família. Fui um péssimo aluno no ensino fundamental... desvarios de um ser humano tentando ser normal!

Devolvi a afronta. Coloquei o dedo na cara do "meu passado", apontando-lhe uma lista de fatos rudes que me marcaram e que me influenciam até hoje: poucas pessoas gostavam de mim por causa da minha aparência (oras, nunca fiz sucesso com as meninas); meus tios debochavam de mim; minha mãe me batia por não entender que a culpa de não conseguir aprender era da dislexia; estudei em escolas de nível educacional questionável; por culpa da anemia, mamãe me encheu de "suco" de fígado de boi, além das incontáveis mamadeiras com leite e farinha láctea (o que resultou num garoto BEM REDONDINHO).

Ah, e falando nisso... que coisa, einh?! O garoto redondinho cresceu, comendo feito um demônio-da-tazmânia, tornando-se num adolescente obeso, retraído, cheio de complexos e irritado por não conseguir achar tamanho de calça suficientemente grande. Uma época de poucas amizades e muitas revoltas... muitas! Revoltado com a sociedade, com o governo, com a superficialidade das pessoas, com a falta de recursos, etc. Por vezes tinha vontade de morrer.

Quando lembro desses tempos, quero tão somente me afastar de pessoas. Dá uma vontade de fazer cara-feia, cruzar o braços e gritar "Afastem-se, tenho lepra!"

É, eu sei! Solidão nunca resolveu nada. Racionalmente tento evitá-la. Solidão não passa de uma armadilha funda, escura e fria. Mas, ao mesmo tempo, é tão difícil pra mim entender os humanos, criaturas nascidas sem nenhuma glória, em meio a fezes, sangue e dores, num pedaço de pano que chamamos por lençol.

Oh, quão miserável e hipócrita eu sou! Tão cheio de defeitos quanto qualquer outro...

Não quero mais conversar com meu passado. Saí daquele diálogo mancando e sangrando. Abrí meus olhos, a ainda estava lá, atrás do sofá, ridiculamente deitado no chão feito criança tristonha.

Ainda sou o mesmo. Cheio de defeitos, meio-revoltado, obeso, complexado e grisalhamente um pouco mais velho. Minha aparência continua não agradando a maioria. Para mim é comum observar as pessoas ocupando todos os lugares do ônibus, menos aquele que está ao meu lado. Afinal, "um elefante incomoda muita gente", não é mesmo?

Quem sabe eu emagreça pra me vingar do "meu passado". Talvez eu decepcione menos, e ajude mais. Isso sim é um bom pensamento! Essa é a parte da história que me arranca sorrisos.

"Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

Bem aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus."

Sermão da Montanha, por Jesus Cristo. Mateus, cap. 5.

O apologeta Rodrigo Toledo pega np meu pé com meu gosto musical e escreve no Reforma Agora
Comentários
4 Comentários

4 comentários

Kecia disse...

Estranhamente, essa história me é familiar...

As vezes vemos nossas dores do "passado" retratadas na hitória de uma outra pessoa.

Mas,isso meio que ajuda...

Abraços.

Rodrigo Toledo disse...

"pega no meu pé com meu gosto musical..." KKKKKKKKKK. Essa foi boa!

Zé Luiz, muito obrigado por ter postado meu artigo em seu espaço. Deus continue abençoando.

Grande abraço, cara. Paz do Senhor.

Regina Farias disse...

PoiZÉ...

A primeira coisa a se fazer é um esforço (mudança, atitude, ação) para combater aquilo que está atrapalhando a nossa auto-estima e, nesse caso específico, nossa saúde física e emocional.

Ou seja, sempre há uma saída, a aplicação do plano B rss

Pra quem chegou à obesidade mórbida, por exemplo, existe a gastroplastia. Para quem carrega outros "elefantes" não tão visíveis, há outros tipos de 'gastroplastia'. Aliás, diga-se de passagem... Se fôssemos nos isolar por causa das monstruosidades que carregamos (E que não são nada estéticas), vivíamos todos isolados uns dos outros.

Tenho um filho que desde adolescente era 'cheinho' e foi ficando mais e mais até que chegou aos 24 com 150k. (Certamente passou por muitas dessas angústias citadas no texto) Conscientizou-se de que precisava tomar uma atitude e emagreceu seguindo a programação da gastroplastia que incluía manutenção psicoterápica. Lá se vão cinco anos e hoje (com 1,84 e 60 e poucos quilos a menos), jogou fora também uma série de bronca psicológica que o atrapalhava.

Não sou dona de nenhuma verdade nem tenho a receita mágica, apenas pego carona no próprio texto onde o autor faz uma viagem pregressa e chega à conclusão de que não adianta encontrar culpados pra nossas mazelas.

As dores e vacilos de pais vão atravessar gerações, vamos cometer erros assim como nossos pais, nossos filhos também irão cometer erros, equívocos, enganos, vacilos, os filhos dos filhos... E assim por diante. 'Não adianta chorar sobre o leite derramado', diz o sábio ditado dos nossos sábios avós. É limpar, tirar a sujeira, perfumar e seguir em frente. E só tem um que pode nos ajudar nessa peleja de maneira satisfatória: Jesus Cristo.

Amei o texto e vou reproduzir no meu blog, ok?

Abs (Q nada tem a ver com freio, muito pelo contrário rss)

Anônimo disse...

Tem certeza que essa história é sua e não minha?, os personagens e o enredo são os mesmos.
Rosana

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