4 de julho de 2011

Não toqueis no ungido do Senhor

por Zé Luís

Foi ódio a primeira vista.

Quando Junior viu o novo funcionário, contratado para aprender seu mesmo ofício, corretagem de imóveis, algo inexplicável nasceu nele: repulsa misturada com muita raiva.

O novo contratado era baixinho, vestia-se com um terno surrado, comprado em algum brechó, e a julgar pelo tamanho, o antigo proprietário conseguia ser menor que ele, já que não devia ter mais que um metro e meio, embora a cabeça grande -e o queixo ainda maior, tudo desproporcional pareciam de uma pessoa com dois metros. Seu português incorreto rendia boas piadas, ainda mais quando ele falava ao “criente” que se “havesse pobrema com a compra”, o cheque seria “assustado”. Nada era tão ruim para Júnior nele quanto um detalhe que incomodava-o profundamente: o sujeito era crente.

Júnior era conhecido por seus dotes na área do ocultismo, seu tarô, suas demonstrações psíquicas e influências que inculcava nas pessoas. Sua mãe babalorixá dava mais credibilidade a ele entre os colegas, que o consultavam com frequencia...até aquele dia.

O tal crente, com sua postura pacífica e com um sorriso inexplicável, não o procurava pelos favores habituais, e ainda mais: não dava a ele o reconhecimento que todos os outros se prestavam (por medo ou por ser a dona da imobiliária simpatizante dessas coisas e amiga de sua mãe macumbeira).

Não demorou para Júnior começar a perseguir o pobre “irmão aleluia”(assim que o chamava), fazendo campanha entre os colegas para que fosse demitido. Com falsos testemunhos, defendia a ameaça de que seria, se esse conseguisse mais êxito nas vendas do que eles (coisa que não demorou a acontecer: em pouquíssimo tempo, vendia mais que metade da equipe) desmoralizaria como profissionais.

-Ele é uma vergonha, fala errado, é um imbecil de uma religião de imbecis – bradava, as vezes, de forma descontrolada, embora o crente nunca percebesse a trama.

Tamanha foi a perseguição, que não tardou para que o crente fosse demitido. Júnior foi para casa, e no dia seguinte, domingo, em comemoração solitária, sentou na calçada, diante da casa onde morava, só de bermuda, tomando todas as cervejas que pode.

Morava numa avenida e olhando ao longe, viu a figura do crente, subindo a pé, debaixo do sol causticante, com seu terno surrado, sua esposa de saião e seus quatro meninos, enfileirados, com bíblias debaixo do braço. Iam para igreja:

-Deus abençoe... - cumprimentou ele com o mesmo sorriso inabalável. Junior apenas grunhiu de ódio: Ele continuava com aquela paz absurda, depois de tudo!

Júnior não fazia ideia como esse negócio de mexer com crente é perigoso: ninguém informou-lhe, por exemplo, que sua esposa era uma desviada da Assembleia de Deus, e sem mais nem menos, voltaria a frequentar uma igreja, reconvertendo-se, e chegando a andar com a bíblia colada a axila. Ele, na tentativa de tirá-la da igreja, acabou se convertendo de forma tão profunda, que passou a tentar converter as pessoas de seu trabalho, sua mãe macumbeira, suas irmãs espíritas. Todos se afastaram dele.

A perseguição que promoveu contra o crente cabeçudo nem de longe foi parecida com a que sofreu: foi humilhado, desdenhado. Por se recusar a prestar os velhos serviços de ocultismo, foi descartado, demitido, e como já não vendia havia meses, sem salário, seu aluguel atrasou e foi despejado. Por não ter onde colocar os móveis, doou tudo e foi morar de favor na casa dos sogros (que eram desviados também), apenas com colchão e dois filhos no quarto do casal.

Hoje, mais de quinze anos depois, Júnior trabalha na área de tecnologia, como coordenador.

Conseguiu sair do aluguel, e chegou a ser professor de escola bíblica dominical. Estudou para ser obreiro, e atualmente escreve sobre assuntos cristãos nesse blog, sempre lembrando que tudo começou quando um idiota achava que podia perseguir uma pessoa que não revidava, por julgá-la indefesa, um crente esquisito e cabeçudo, que nunca mais viu, embora quisesse muito agradecer-lhe por ser um cristão legítimo, e claro, pedir-lhe perdão.

Júnior sou eu.