23 de julho de 2011

O carpinteiro e os dois fazendeiros

por Zé Luís

Dois  irmãos  moravam  em  fazendas vizinhas, separadas apenas por um riacho, e tiveram grande discórdia. Foi a primeira grande desavença em toda uma vida de companherismo fraterno, onde sempre trabalharam lado a lado.

De repente, tudo mudou: O que inicialmente era apenas um inocente mal entendido, transformou-se, de uma hora para outra, em agressões e xingamentos, gerando mágoa e a pior das mortes: o total silêncio de ambas as partes.
Certa manhã, o irmão mais velho ouviu baterem à sua  porta:

-Bom dia. Sou carpinteiro e procuro trabalho. É possível que você tenha algum serviço que eu possa executar em suas terras?
Após breve reflexão, o fazendeiro respondeu:
-Sim! Vê aquela fazenda ali, além do riacho? É do meu principal desafeto. Esse vizinho, que na realidade é meu irmão mais novo, é alguém que resolvi manter a maior distância possível. Brigamos e não posso mais suportá-lo. Vê aquela pilha de madeira ali no celeiro? Vê toda aquela área que divide nossas terras? Use as ripas e construa algo que resolva meu problema. É capaz de construir uma cerca bem reforçada?
-Claro que sei, esse é meu oficio – disse o carpinteiro - Entendo a situação. Mostre-me onde estão as ferramentas e farei o que você precisa para resolver o problema.

Foi então o irmão mais velho, após entregar o material ao homem, à cidade, deixando-o ali, cortando, medindo, trabalhando o dia inteiro e fazendo tudo como planejara.

Quando o fazendeiro chegou, não acreditou no que viu: em vez da cerca, uma ponte  foi  construída, ligando as duas margens do riacho. Embora fosse um belo trabalho, o fazendeiro enfureceu-se:

-Que atrevimento é esse? O que pensava quando contei tudo que contei? - gritou o fazendeiro enfurecido.

Enquanto apontava para a ponte, diante do sorriso enigmático do carpinteiro, viu vindo pela nova ponte o irmão, olhos marejados, de braços abertos. Ele andou até a metade e parou dizendo:
-Depois de todas as ofensas que falei, você mostrou que nossa amizade era maior, a ponto de mandar fazer essa ponte! Estou envergonhado com seu amor, meu irmão...perdoa-me?

Foi quando algo se quebrou dentro do coração do fazendeiro mais velho, e num só impulso, correu na direção do outro e abraçaram-se, chorando no meio da ponte.

O  carpinteiro começou a fechar a sua caixa de ferramentas e dirigir-se a saída da fazenda.

-Espere, fique conosco! Tenho outros trabalhos para você!
-Seria bom poder ficar, mas tenho outras pontes a construir...

O carpinteiro partiu, e os irmãos puderam perceber, enquanto ia embora, que nas mãos do misterioso profissional, haviam profundas cicatrizes, como se um dia tivessem sido perfuradas de forma violenta.

Não são poucas as vezes que pedimos a Deus que nos vingue, e ele vem com aquele papo chato sobre perdão. Falamos a Deus: faça-nos uma cerca segura e nos mantenha seguro dos que nos magoaram, e Ele nos dá pontes, nos aborrecendo com o desconforto de andar uma milha a mais com quem nos humilhou.

Prostestamos contra a ineficácia da oração e que Deus não responde quando invocado, sem perceber ao fundo as marteladas e o ronco do serrote, edificando a solução correta. Pode ser que esta não seja a que queríamos, ou mesmo julgamos ser a ideal, mas o que Ele nos traz é a exata e - muitas vezes - amarga medida para nosso problema.


Mensagem baseada em e-mail enviado por Érica Fadinni

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