1 de outubro de 2011

Crente fraco, crente forte...

por Zé Luís

     O rapaz, não muito ligado a religiosidades, chegou no escritório em que trabalhava, um departamento da empresa com quase uma duzia de mulheres, todas evangélicas, tendo em mãos um saco de deliciosas balas carameladas, com recheio de chocolate e doce de leite. Ele sabia qual seria a atitude das mesmas diante daquelas deliciosas guloseimas e oferecia a elas sem restrição: Pode pegar o quanto quiserem, trouxe para ser consumido aqui mesmo – dizia ele.

Uma das moças, enfiou três balas na boca de uma vez, e sorrindo para as amigas, mostrava os nacos marrons do caramelo, grudados nos dentes.

“-Vocês não vão acreditar, mas acabei de ganhar esse saco de bala delicioso de um centro de umbanda que frequento, era festa de Cosme e Damião e, na festa, os erês sempre me presenteiam... mas esse ano eles capricharam não acham?...”

Não é necessário contar que enquanto ele falava, as crentes cuspiam suas balas, outras corriam para o banheiro para lavar a boca ou pegar papel para limpar a sujeira que fizeram em suas mesas, com toda aquela cusparada.

Na primeira carta de Paulo aos crentes da cidade de Corintho, ele separa como fracos, logo no capítulo 8, os que se privam de se alimentar de comidas – ditas – consagradas a deuses – ou demônios, se preferir. Segundo o raciocínio, não existem deuses para se consagrar alimentos, e portanto, a não ingestão dos mesmos é apenas uma das diversas amarras que mantém o salvo em Cristo com trejeitos de quem não desfruta essa salvação.

Dentro desse misticismo dos fracos, no qual, quase todos nós estamos inclusos de uma ou outra forma, estão velhos medos, usos e costumes preservados por uma tradição inexplicável, e que muitos continuam aplicando, por medo - ferramenta tão útil na mão dos manipuladores – mantendo-os nas amarras imaginárias. Alguns, por cumprirem suas regras imaginárias, se julgarão atalaias da verdade e da vida, outros verão no hábito das interpretações particulares, forma de lucro. Em resumo, é muito comum ver fracos mostrando fortalezas, enquanto o forte, diz-se um fraco.

Logicamente, Paulo não recomenda que aquele que julga ser pecado algo que não seja, que passe a prática-lo só porque viu um crente firmado fazendo. A consciência deve estar firmada na compreensão da força do sangue de Cristo. Sem isso, essas coisas praticadas se tornarão pecados íntimos, quebrando neste a comunhão com o Altíssimo, já que isso ainda não foi bem resolvido em seu íntimo. Ao Espírito não foi permitido ainda a cura nessa área, eis sua fraqueza.

Na parábola dos talentos, aquele que só tem um talento se justifica de sua atitude covarde por ter no dono do que lhe foi confiado, alguém severo, e o mesmo se faz assim, acusando-o de servilidade inútil. O doador dos talentos prefere entregar mais talentos para quem o olha como generoso, e não como castrador. O dono dos talentos é o mesmo: o que muda é a forma que cada um pretende servi-lo quando Seu chamado vier, e os piores servos são aqueles que esperam leis no lugar da Graça, embora sejam servos, e fracos.

Já o que pode se alimentar de tudo, não o faça diante daquele que não crê assim, continue sem o alimento, fazendo-se de fraco. Esse tal crente forte, fazendo coisas consideradas erradas aos olhos do fraco, confunde-o, podendo causar-lhe a perda de seu zelo, precioso aos olhos de Deus, a ponto dele olhar para sua própria fé como algo também superável. Os fortes são responsáveis pelos que não tem os artelhos firmados na caminhada, como deve-se fazer nas famílias que se amam.

“Examine o homem a si mesmo” - aconselha o apóstolo dos gentios, um convite a usarmos esse presente divino, chamado cérebro, combinado com a presença em nossa alma do Espírito, para compreender intimamente nosso caminho, não fazendo dessa compreensão algo digno de ser gabarito do que é certo ou errado para os que nos rodeiam.

Paulo escreveu isso há 2000 anos. Desde o começo é assim, feito em varias escalas, criando mutações – malignas - do Cristianismo, que não morrem com tanta facilidade: versões e interpretações de leis, regras, roupas, sons, símbolos, cores, lugares, períodos. Todas elaborados fora da Graça.