24 de outubro de 2011

Queria que todos eles morressem...

por Zé Luís

Por coincidência ou por falta de criatividade que me bastasse, passei minhas últimas semanas de férias diante de uma tela, vendo diversos filmes que apareciam na programação da TV a cabo. Nada de grandes lançamentos, apenas aquelas histórias que ouvia meus colegas de serviço -e de internet – comentarem e não tinha tempo (nem disposição: prefiro ler) para assistir.

Muitos dos filmes que assisti sempre tinham cenas de lutas, guerras ou mesmo um vilão digno de perecer dolorosamente. Mas não pense que só assisti gêneros como Kill Bill, do Tarantino. Toy Story 3, por exemplo, tinha um ursinho do mal que merecia o fim que teve. No Livro de Eli, por algum motivo, matar os personagens apocalípticos da trama era a única coisa sensata a fazer (e não fazer, trucidá-los, implicava em deixar assassinos estupradores a solta para causar mais e mais dor).

Normalmente os vilões são de fácil identificação quando se assiste Senhor dos Anéis, e não há nenhum remorso quando se esmigá-lha um orc a machadadas: cada cabeça malévola de orc que é arrancada gera a comemoração de um gol na audiência angustiada pela derrota do mal. Mas nem sempre os vilões são belos: em Distrito 9, produção feita na Africa do Sul, confesso que não tinha passado nem metade da história e já estava torcendo pelos alienígenas, mesmo eles não sendo tão bonitos como os indigenas de Pandora em Avatar. Na verdade, pareciam grandes baratas com cara de siri.

Kick Ass, uma produção baseada em quadrinhos, traz um questionamento do personagem central: “a semelhança entre as histórias de super-heróis e a vida real, é que nos dois casos, vilões existem e sempre maquinam maldade...”. O mocinho da história, vestido de roupa de mergulha, experimenta o que a crueldade é capaz de impor, para manter seu mando de campo.

“Os homens que não amavam as mulheres”, Enrolados, Thor, Homem de Ferro, Hulk, e tantos outros, com vilões que deveriam ter duas vidas, só para sofrer com a morte duas vezes.

Lia dia desses um comentário de um ateu sobre a crueldades relatadas na bíblia de Deus contra suas criaturas, onde afirmava não existir livro mais cruel, com genocídios e guerras sangrentas.

Creio que esse ateu poderia estar sentado comigo em uma sala escura de cinema, clamando pelo sangue do maldito e cruel vilão, aplaudindo seu fim trágico, por mais que o diretor tenha exagerado na violência exigida para o extermínio do mesmo.

No fundo, religiosos ou não, o senso de justiça é sempre igual. E não é preciso ser um exemplo moral: experimente mandar um estuprador para uma cela de detentos, experimente ver a vingança de um povo oprimido, contra seu ditador quando tem a chance de colocar as mãos naquele opressor, veja a ira do mundo contra o povo alemão quando esse abraçou o nazismo como sua ética popular, justificando todo extermínio em nome de serem superiores.

Temos esse senso da vingança pela ira: o marido traído, a mulher espancada, a criança agredida, o idoso maltratado, o mentiroso que engana a todos, o ganancioso que deixa muitos sem sustento em nome de seu lucro, o garoto assaltante que mata o pai de família, o sujeito galhofeiro que fala contra o time do coração, contra o partido político, contra a religião correta, o arrogante que se acha mais que os outros.

Se o mundo fosse feito apenas desses personagens(o que de fato é), o que esperar dele, que não seja uma bomba que o destrua com requintes de crueldade? O medo do fim do mundo é um medo justificável, pois no fundo, sabemos o quanto merecemos.

Assistindo o fim do mundo através de Presságio com Nicolas Cage, a angustia de ver o mundo se acabar só é superada pela exata certeza que o homem, antes de morrer, faria aquilo: saquearia lojas por televisores ou cerveja quente, mesmo sabendo que em breve, arderia nas chamas de um planeta moribundo. Essa natureza caída humana, que merece morrer, é julgada pelo mesmo senso de justiça que habita em cada ser desse vasto planeta. Sem o sangue, é exatamente esta que nos condenará no dia do Juízo.