5 de novembro de 2011

Os tempos de escravidão estão chegando

por Zé Luís

Não conheço tão bem a História nacional para me dar ao desfrute de comentar História alheia, no caso, a americana, mas lendo sobre a Guerra da Secessão vi um Status Quo como padrão, mesmo entre os que confessam o Cristianismo como sua filosofia de vida.

Quase um milhão de americanos morreram em quatro anos (1861 – 1865) na chamada Guerra de Secessão, quando os Estados Unidos dividiram-se, a grosso modo, entre escravagistas e abolicionistas, a ponto dos estados anti-abolicionistas se declararem separados, criando outro país pela necessidade da mão de obra escrava, e o caos econômico que isso representaria, se desfeito.

Hoje, séculos depois, olhamos para o argumento escravagista como um absurdo contra uma raça, mas aceito por metade de uma população – das dimensões de um país que hoje é potência - que olhava para a cor de uma pele e definia o que bem entendia em nome de sua necessidade econômica. A propósito: a maioria aristocrata, defensora da escravagismo era chamada “evangélica”, e ameaçar esse sistema econômico-social era por em risco as ricas bençãos que o Senhor Todo Poderoso proporcionou àquele grupo de eleitos. A população escravagista, servos do Deus Altíssimo, defenderam com unhas e dentes o direito de manter cativo gente (embora não os considerassem assim) raptada de seu continente em nome de seu faturamento sempre lucrativo. Michael Moore diz que o capitalista é capaz de te vender corda, correndo o risco de ser enforcado por ela, se isso representar um pouco mais de lucro.

Eu sei, o Brasil foi o último país a abolir a escravatura, mas o contexto é bem outro aqui.

Não é de agora que certas teologias se adaptam ao pensamento cotidiano de uma época (vide as justificativas mórmons quando alegam que a melanina na pele de um descendente africano é a marca da maldade, colocada por Deus em Caim) : aquele povo cristão, após ser vencido na Guerra, teve de abdicar de suas regalias, e conviver com uma realidade – tida como - miserável: sem a mão de obra gratuita, parte do dinheiro tinha que se reverter em salários, justa paga àquele que trabalha, e metade de um país se viu perdido, já que sem parte de seus recursos, a qualidade de vida cairia drasticamente. Com parte da população agora livre, sem escolaridade, sem formação, sem ter para onde ir, seria mão de obra concorrente nas filas de emprego. O ódio racial perdurou por muitos anos naquela região.

Hoje, séculos depois, no Brasil dos contrastes raciais, essa mentalidade continua a ser propagada, justo quando há um crescimento considerável entre os que se denominam “evangélicos”: qualquer pessoa que frequenta uma igreja deparará, quando em vez, com um discurso com teor similar aos escravagistas.

Embora nosso regime proporcione a livre escolha de nossos governantes, sempre haverá quem se coloque como voz profética, estrategicamente posta para que se acredite que manter injustiças só para não correr o risco de despertar a ira divina, ou estar elegendo um servo do capeta por engano. Todo argumento - mesmo absurdo - pode variar da necessidade de quem quer se colocar na liderança, já que se trata de um grupo que engole qualquer coisa, desde que a frente esteja, não tanto um versículo bíblico, mas alguém que tenha diante de seu nome algum título eclesiástico.

Faça um teste: quando o líder de sua igreja local vier lhe indicar um candidato, experimente dizer que escolherá o que melhor lhe parecer, não sendo necessariamente aquele, e espere para ver com que olhos será visto a partir daquele momento. Um rebelde luciferiano, certamente.

Ano passado, fiz o teste entre muitos “irmãos em Cristo” e descobri que eu era um diabo, que a mesma Globo que sempre perseguiu crentes, era agora exemplo de jornalismo sério, quando insinuava ligações criminosas e satânicas dos candidatos que não interessavam ao grupo (como sempre fez).

Vi com tristeza que meus irmãos engoliram um vídeo encomendado - por um amigo - sobre os riscos satânicos e homossexuais de manter o atual governo, quando neles, esses crentes amigos, existe um Espírito excelente que os mantem fora do engano caso Ele fosse ouvido (sim, o vídeo foi uma encomenda muito bem remunerada). Por onde anda o tal pastor, autor do vídeo, e sua força política no momento? Ninguém percebeu que a única forma que o Serra (lembra dele?) só chegaria ao 2º turno na corrida presidencial se ele mesmo apoia-se a Marina Silva (lembra dela?), já que foi constatado que aqueles que mudavam para Marina tinha Dilma como escolha inicial. A tal “Onda Verde” virtual nada passou de uma manobra muito bem arquitetada.

Manobras e manipulações de massa.

Pastores e profetas virtuais soltaram suas pérolas, em nome da escravatura velada. Justo eles a quem o Senhos dos Exércitos incumbiu para falar sobre o seu Reino, o Seu, o vindouro. Pastores que respeitei até aquele momento fizeram seus conchavos políticos, acertaram cargos, caso ganhassem, e mandaram às favas até o bom senso quando questionados sobre suas posições nada espirituais e totalmente interesseiras.

Confesso que ver essas igrejas incumbidas em campanhas políticas, tudo em nome de Deus, atingiu-me violentamente. Nesse momento, não há necessidade de se falar nos abortos, nas leis que beneficiarão homossexuais (salvo aqueles “teólogos” que dependem de falar disso para ganhar seu gordos beneficios), mas sei que estamos chegando em ano de eleição, e não faltarão púlpitos que se tornarão palanques, pastores tornar-se-ão cabos eleitorais, congregações repetirão feito maritacas qualquer besteira que lhe oferecerem como espiritualmente correto e aceitável. Idiotas virtuais postarão imbecilidades usando versículos bíblicos, como feito em tempos idos, para justificar a escravidão, e terão outros milhares de imbecis aplaudindo, muitos deles levando – supostamente - uma bíblia debaixo do braço, propagando ódio, divisão, maldade. Tudo isso justificado pela benção que é ser servido por escravos e como manter o dinheiro nas mãos de quem sempre os teve é bom para Deus. È sempre bom poder fazer uma oração de ação de graças enquanto os servos nos colocam a janta e lavam nossa louça.

Depois é só você criticar os políticos que ajudou a por para cuidar de nossos impostos, e justificar dizendo que o mundo jaz no maligno. Não queria te contar: o sujeito que você elegeu é brasileiro, pensa igual a você e beneficia-se dos recursos como você possivelmente faria. Chocado? Os europeus também, principalmente quando elegemos personalidades como, por exemplo, Paulo Maluf. Quem elege um sujeito desses, na política bem antes de existir PT, simpatiza com sua forma administrativa, e portanto, se faz cúmplices de seus roubos: és ladrão como ele. Se você elegeu o “pior que tá não fica”, pode cobrar o que?