10 de fevereiro de 2013

Quem subiu quando Jesus voltou?

por Zé Luís

- Você ficou sabendo?
- O que? - respondeu ao telefone o reverendo, sem desgrudar os olhos da imensa tela de TV, enquanto mascava salgadinhos. Nem se dava conta de qual de seus pastores-auxiliares estava ao fone.
- Pelo que tudo parece, reverendo: o Cristo voltou... e já foi...
- Voltou é?... - comentou ele, sem grande entusiasmo: ele assistia um filme pornô enquanto falava, e sua concentração estava totalmente focada naquelas cenas. Pela enfase no assunto, só podia ser o Antenor, um pastor novato, vindo de uma escola teológica mais tradicional, com a ilusão teimosa de fazer diferente, embora seu contrato de trabalho junto àquela igreja o obrigava a imitar até os trejeitos do fundador daquela igreja, com quem falava agora.
-O senhor não viu os noticiários? Os sumiços?
O reverendo se riu, e até pausou o filme:
-E quais igrejas sumiram? - perguntou ironicamente, parecendo divertir-se com a informação.
-Nenhuma... pelo que noticiaram, foram sumiços aleatórios, a grande maioria não era religiosa, ou mesmo frequentava uma igreja...
O ar divertido silenciou. Antenor continuou:
-O tal objeto brilhante no céu que os astrônomos não souberam explicar, lembra? Ontem ele completou 7 dias. Tem certeza que não ouviu o ruído que ele fez, reverendo?
O reverendo estava bêbado demais naquela hora para ter ouvir qualquer coisa.
-Prossiga, Antenor...
-Então... a Nasa afirma que o tal objeto emitiu aquele som pulsante do espaço, eu vi... só eu não, quem procurou a origem do ruído no mundo todo viu também... quando o brilho se intensificou como um prolongado relâmpago. O céu empalideceu, num branco intenso a ponto de ofuscar o brilho do sol. Foi súbito, parecíamos banhados por uma luz tão densa que me fez imaginar estar mergulhado num oceano de leite, embora não nos sufocasse, não houvesse calor ou qualquer tipo de reação desagradável em nós. Era aconchegante.
Da forma que se intensificou, gradativamente desvaneceu, e todos nós estávamos lá ainda...
-Que horas foi isso? - interrompeu o reverendo, com voz entrecortada.
-Acho que eram três da manhã aqui no Brasil. Foi um evento simultâneo, mundial. Não entendo como não pode ter visto. Não havia como não perceber! As ruas se encheram de gente olhando para o céu, mas não havia pavor, nem saques, ou gritaria... Quando a luz cessou, e nos olhamos, já não havia mais vontade de nada, as forças e o entusiamo foram embora com o apagar da luz... sabe quando estamos confortáveis diante de uma lareira em um dia de frio, e de repente, ela se apaga, assim como toda a luz em volta? A sensação é a mesma até agora: o frio vazio. Como nada aquecesse a alma, entende reverendo? Reverendo? Ainda está aí?
-Sim...- disse ele. Sua voz parecia entrecortada. Entendia agora porque as pornografias pareciam não fazer mais efeito, nem o álcool o embebedou, nem as prostitutas o interessaram naquele dia.
-Não existem mais crianças... pelo menos as bem pequenas. Mas quase ninguém desapareceu: as igrejas permaneceram com toda a sua membresia praticamente. Um ou outro indivíduo foi dado como perdido. Quem viu um destes raros desaparecimentos conta que a pessoa foi tragada pela luz branca, e quando a mesma foi sumindo, elas sumiram junto... mas preciso urgentemente saber: Por que ficamos? Não eramos aqueles que subiríamos com o Senhor?
O reverendo gargalhou.
-Você está falando sério, Antenor?
-Como assim reverendo?
-Você sempre soube que nossa forma de pregar o Evangelho não pregava Evangelho algum. Era apenas um sistema que não nos levava a nada que não fosse uma indução emocional dessas pessoas para fazer o que queríamos. É claro que ninguém dos nossos grupos sumiriam nesse evento. Não temos nenhuma relação com a proposta feita pelo Cristo para o dia de sua volta.
-E o que faremos? O que diremos a nossas ovelhas?
-Da sua parte eu não sei. Com o dinheiro que ganhei com elas, posso viver mais décadas sem precisar trabalhar, embora só tenhammos sete anos a partir de agora... não esperava que Ele viesse nos atormentar antes do tempo... na verdade, não esperava que toda aquela baboseira escrita há séculos fosse realmente verdade... passar bem, Antenor.
-Como assim reverendo?
- Meu nome é Carlos, Antenor. A igreja não existe mais. Poupe-me...e poupe-se desses títulos eclesiásticos, eles só servem para dar autoridade diante de ovelhas que já não me interessam mais. Preciso acabar de assistir meu filme... até nunca mais.

Desligou e não atendeu mais nenhuma ligação naquela noite.

O noticiário, poucos dias após o evento e o desaparecimento de alguns parcos cidadãos pelo globo terrestre, informou sobre a crescente onda de suicídios envolvendo conhecidos religiosos do mundo inteiro. Entre eles, Carlos e Antenor. O reverendo, naquela mesma madrugada, após desligar o telefone, envenenou-se, misturando veneno de rato com uma dose de uísque Jack Daniels.
Antenor atirou contra a própria cabeça, diante de uma multidão de fiéis, que assistiam seu sermão.