28 de março de 2013

Bobagens sobre Hulk e imperialismo

por Zé Luís

Até algum tempo depois de casado, fui um colecionador de revistas de história em quadrinhos. Gostava do Universo Marvel com X-man, Vingadores e tantos outros heróis e vilões, além de DC e outros universos. Lógico que com o casamento, e consequentemente, a vinda dos filhos, isso se perdeu: meus garotos tinham uma estranha obsessão por rasgar papel e minha mulher, veladamente, esperava pacientemente a abertura do espaço dos gibis para aloca-los com sapatos de salto e afins que acumulava pelo ano.

Os heróis, na grande maioria das vezes, portam algum poder, e este faz com que eles se destaquem em suas ações, tanto para o bem, e “com grandes poderes, grandes obrigações”, como dizia o tio do Homem-Aranha.

Hulk é um personagem que sempre me despertou certa curiosidade, e recentemente me chamou ainda mais atenção, quando refletia sobre o que assisti, “O Incrivel Hulk”, com Edward Norton.

Caso você não tenha assistido, o homem que fica verde e ganha força infinita quando é aborrecido está escondido na favela da Rocinha, procurando a cura para sua transformação. Ele trabalha numa fábrica bolorenta de refrigerantes.

Quando a gente é criança não se pergunta coisas básicas como:

Por que David Bruce Banner nunca teve um aneurisma ou um AVC? Nunca se borrou durante uma transformação?

Por que a única parte das roupas do Hulk que nunca rasgam são às que cobrem a genital? Cheguei a querer defender uma tese sobre impotência relacionada ao nervosismo baseado na única parte do monstro verde que simplesmente é insuficiente para rasgar a roupa. E nesse caso, sem se o Viagra for feito de Raio Gama.

Eu sei. Sou um leigo falando do assunto. Entenda: já tem algum tempo que não dedico muito de minha atenção para produções americanas, e pode ser que exista alguma atualização dessa informação, mas já fazem anos que eu não me dedico ao conhecimento dessas personagens.

Um outro trecho do filme que sempre me passou desapercebida – assim como em tantos outros filmes americanos onde o exército americano salva o mundo - é a facilidade com que as forças armadas americanas invadem a Rocinha, coisa que só o Bope faz, e não com pouca dificuldade (e olha que os “Caveiras” fazem estudos minuciosos sobre essas invasões, enquanto meia duzia de gringos invadem os labirintos da comunidade, sem ter a menor ideia de onde eles estão. Eles chegam, com seus armamento, passam por barracos e casas, atirando entre crianças jogando bola.

Não é a primeira vez que isso acontece nos filmes: sempre tem um americano surgindo numa patria desconhecida, fazendo e acontecendo, sem que as autoridades locais sejam capazes ao menos de saber que há um tiroteio celebrado por um estrangeiro, como se treinasse tiro-ao-alvo no quintal da casa dele.

E nós, olhamos aquilo tudo e achamos a coisa mais natural do mundo.

Alguém consegue imaginar o Capitão Nascimento invadindo algum gueto novaiorquino, com caveirão e equipe montada, só porque ele está perseguindo um traficante? Alguém consegue imaginar uma equipe chilena montando campana em frente a uma vila em Chicago ou Ohio, procurando seus inimigos públicos?

A realidade é que o Vietnã, por exemplo, é um daqueles exemplos amargos, onde a nação que defende o mundo invade outra, com poder bélico bem inferior, e não tem condições para derrotar o “ínimigo”, que por sinal, estava em sua própria casa.
Claro: lamento pelos que perecem nessas guerras, os filmes contam histórias de heróis em glória.

Mas a questão aqui é simples: desde quando é natural que um país tenha acesso livre a qualquer lugar de outro, empunhando armas e vasta equipe?

O mundo assiste essa situação acontecer sistematicamente há anos, e quando alguém resolve dizer “não” a essa invasão (seja ela cultural, religiosa, bélica, industrial, comercial) imediatamente é imposto regras para aquela nação “rebelde” para que seja sufocada, até que ceda.

“O Incrivel Hulk” é um filme feito para crianças, embora a ideia de revidar bulling covardes, frustrar a pior das agressões, de forma tão truculenta, é algo que - intimamente – me agrade.

Mas aquela mensagem incluída, que você precisa aceitar naturalmente, por mais absurda que seja, está lá, e certamente você nem havia se apercebido. Nem notou que não há nada demais que estrangeiros invadam nossas casas para resolver aqui como resolvem ali.

Ou sou só eu?