21 de setembro de 2013

As vezes, só depois do fim...

por Zé Luís

E novamente, a entrevista de emprego não deu em nada. Tudo parecia certo, mas eles nunca ligaram. Eu tinha certeza que estava empregado, mas ao contrario do que pensei, a vaga foi preenchida por outro, sem eu saber ao certo no que falhei em responder.

Ele desapareceu. Tudo parecia bem entre nós, mas um dia tudo mudou: quase mudo, estranho, pegou suas roupas e foi embora, sem olhar para trás ou dar atenção ao meu choro desesperado de mulher que não entendeu o porquê daquele adeus. Tinha certeza que ali habitava um amor sincero, mas o que mudo? Ele nem sabe da gravidez. Teria o tempo sido mais forte para desfazer o amor verdadeiro que ele um dia jurou?

O filho que nunca nasceu para um casal amoroso, certamente ótimos pais, em um mundo onde nascem tantas crianças abandonadas ou com monstros no lugar dos tutores.

O casamento que não vingou, o perdão que nunca aconteceu. A cura que não veio.

O ministério abafado inexplicavelmente por quem deveria apoiá-lo.

O sonho que realmente não aconteceu. A esperança da compreensão que nunca veio, o aprendizado que não chegou a tempo, a salvação daquele amado que não ocorreu, já que morreu sem desejar ver a luz do Caminho.

Coisas ruins acontecendo em um mundo onde existe um Deus dito onipotente, onipresente e onisciente.

Certa vez, quando o Mestre estava em seus últimos minutos antes de sua morte, seu ultimo jantar, fez algo inusitado diante de seus discípulos.

Era costume na época que as pessoas tivessem os pés lavados* por algum criado “raso” na hora da ceia (*nada mais natural: não haviam mesas como conhecemos hoje: eram tablados quase no chão. Sentavam-se em almofadões espalhados pelo piso... Já imaginou? Aqueles pés, cascudos de andar por todas a Israel, subindo e descendo montanhas... tudo isso bem perto da comida posta sobre a mesa?).

Estavam todos a mesa, esperando o vinho e o assado de Pascoa, quando o filho de Deus se levanta, se despe como se fosse um empregadinho e começa a lavar os pés dos seus alunos.

Como não ficar desconfortável diante de tamanho disparate? Ali estava Deus!

Pense se seu pai, dono da maior empresa que se ouviu falar, parar tudo durante um jantar comemorativo e vai lavar as mãos do pessoal da faxina.

Por que eles não se ofereceram para o serviço antes do Cristo? - devem ter se perguntado. Para Pedro, aquilo foi demais:

-Não vai lavar! Isso não é trabalho para Deus!
-O que faço agora, não entende. Compreenderá depois...- respondeu o Cordeiro, prosseguindo com seu trabalho de banhar aqueles pés sujos e ossudos.

Sim.

De fato, Pedro compreenderia a mensagem que seu Mestre ensinava ali, não naquele dia,mas tempos depois. Muito se passou até que o velho Cefas compreendesse a dimensão daquele ensinamento.

O discípulo que não abandona - pelo menos, não em definitivo – vai entender que Ele, as vezes, faz coisas incompreensíveis agora, a serem entendidas depois.

Já dizia o autor de Eclesiastes: Existe tempo para tudo debaixo do sol, e mesmo aquele que não confessa fé consegue perceber em alguns momentos, mesmo que parcialmente, as pontas soltas se juntando, como se aquelas histórias reais estivessem inexplicavelmente fazendo um sentido só possível na ficção.

Mas sejamos francos? E quando a história termina sem sentido? Não são poucas as vidas sem um final feliz.

Por isso escolhi a visão cristã: Ela fala de um mundo carente de redenção, de vidas embebidas em um vale de lágrimas, conta sobre um Reino a ser trazido, tomando lugar do perverso reino atual (e reinos são sistemas sociais, políticos). Utopicamente, sonhamos com o dia que esse sistema decadente, que beneficia uns em detrimento das maiorias, será substituído pelo justo, ético e bom.

E claro: cristãos não vivem apenas para essa existência, sua justiça não espera que tudo se resolva NESSA vida, o que não desdiz os que não veem Deus afirmam: não existe perfeita justiça. Fato. Poucos são os que se empenham em cumprir o Pai Nosso, cumprindo o “venha a nós o Teu Reino”, e permitindo que “seja feita a Tua vontade”.

Quantos vivem suas vontades, criando seus pequenos universos? Outros compartilham desses pequeno reinos criados, sem se dar conta que Deus não tem nenhum compromisso ou obrigação com esses sistemas inventados. Quando se dão conta, o caos formado, o colapso em nosso pequeno mundo que falece no mal, estamos mergulhados em desespero, desesperança, e incompreensão: “Por que Deus não se fez presente para nos livrar do mal que MEU sistema de coisas ajudou a criar?”

O grande consolo é que mais cedo ou mais tarde teremos as respostas.

Entenderemos depois... ou como os cristãos compreendem, as vezes, só depois do fim.

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