25 de março de 2015

A maldição de ser um divorciado


- Sou uma amaldiçoada...- disse a irmã, numa postura que expunha uma tristeza maior do que ela gostaria de mostrar.
- Por que diz isso, irmã? - indaguei.
- Estou no fim do meu segundo casamento. Viúva do primeiro, separada no segundo, incompatibilidade de gênios. Nos separamos para que não se perpetuassem as brigas diante de nossos filhos (de casamentos diferentes). Decidimos que o melhor seria ir cada um para seu lado...
- Entendi. Mas isso te amaldiçoou? De que forma?

Foi então que ela sacou o versículo.
Ele respondeu: "Todo aquele que se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério contra ela. E, se ela se divorciar de seu marido e se casar com outro homem, estará cometendo adultério". Marcos 10: 11-12
Entendi a maldição.

Ela estava condenada a não casar nunca mais,  a não ter mais ninguém, a não amar eroticamente mais nenhum homem. Nem seu ex-marido poderia (que se separara da primeira esposa por causa do adultério de sua primeira esposa, o que autorizaria um novo casamento).

O capítulo 10 de Marcos trata disso:

Fariseus aparecem com seu livro de regras questionando sobre a opinião de Jesus sobre o divórcio. Era uma questão difícil e tentavam pegar o Mestre em uma resposta que pudesse ser usada contra ele. 

Contexto:

Mulheres da região de Israel - 1930Mulheres na época desse versículo eram dadas em casamento por suas famílias normalmente já na primeira menstruação. Muito provavelmente, Maria, Mãe de Jesus, devia te por volta de treze anos quanto o teve (Aqui no Brasil, conheço algumas pessoas que tiveram avós dadas em casamento nessa idade).

Elas não tinham direito a alfabetização, não poderiam questionar ordens masculinas, ou mesmo encarar um homem sem permissão. Com uma sociedade paternalista, era comum que tivessem muitos filhos, já que isso constituía maior mão de obra disponível. Era comum que houvessem mortes causadas por partos. Raquel, esposa de Jacó, morre em consequência do parto de Benjamim, seu segundo filho, na tentativa de ganhar mais atenção de seu marido, que fazia filhos com Lia e as duas empregadas.

Não: não havia obstetras ou ginecologistas. Nem tão pouco boas condições de saneamento. Advogados? Mesmo que existissem, não trabalhariam em prol de uma "mulher". Não notou que as mulheres nas genealogias 

Ela teria direito a casar-se novamente, no caso do marido a abandonasse? Desde que tivesse uma carta dada pelo ex-marido comprovando que ela não tinha cometido adultério, que poderia levá-la a morte por pedradas. Sem essa carta, essa mulher - caso sobrevivesse - ficaria marginalizada. O tal documento só começou a ser dado por imposição de Moisés. Jesus comenta isso, dizendo que a motivação da criação da carta era a insensibilidade dos homens de Israel. O "coração duro".

Mas Imagine o que sobrava de uma mulher após anos de servidão ao marido, efetuando trabalhos braçais, parindo um filho atrás do outro. Ela poderia até ter a tal carta, mas em um mundo onde meninas virgens eram dadas sem um corpo formado com a função de reproduzir, qual a chance de sobrevivência nesse caso? Que homem se interessaria por uma mulher "rodada", quando possuía "opções" melhores de escolha?

Jesus lembra que o homem e a mulher foram feitos para viver juntos, e para sempre, e que apesar da carta de divórcio, se alguém pretende seguir a Lei, tem que fazer isso de forma integra, invalidando inclusive a carta autorizadora. A Lei não pode ser revogada apenas por causa de um coração duro. Usou? Que assuma até o fim.

mutilação de vaginaJesus cobrava o senso de responsabilidade de um homem que tirava a mulher - ou menina? -  de sua família, usava, mantinha relações, gerava mão de obra para seu próprio enriquecimento, e depois a descartava quando ela simplesmente já não lhe agradava.

Ainda hoje, em alguns países de maioria islâmica, as mulheres são tratadas de forma semelhante. Algumas ainda tem seus clítoris removidos para que não sintam prazer durante os atos sexuais. Fazem isso alegando que tal amputação evitaria a prostituição. 

Além disso, não existia celebrações religiosas: o que Deus unia não era estabelecido por uma cerimônia feita por um rabi, padre ou pastor. As festas de casamento eram dadas pelas famílias dos noivos e duravam dias (vide Jacó, que toma um porre tamanho que não reconhece que transou com a filha errada). Por isso, não se pode alegar que é nesse momento cerimonial que é selado a escolha de um casal por Deus por algum ministro religioso.

Uma outra mulher, samaritana - João 4 - foi interpelada por Jesus em um poço. Ela, além de mulher - que não tinha autorização de falar com homens, era "samaritana", e portanto, impura aos olhos dos judeus. Por ter essa origem, a Lei ordenava que aquele que tivesse contato com mesma fosse penalizado em quarenta dias sem estar no Templo, por tornar-se imundo com o contato. 

Pelo mapa, Samaria não era uma boa opção de percurso. Ele escolheu estar nesse local, creio eu, prevendo o encontro com essa mulher, que estava no quinto casamento, e vivia com alguém, um sexto, que não o era (possivelmente, o quinto não deu a carta de divórcio).

Creio que se a irmã citada no início de nosso texto se acha maldita, essa samaritana era o que? De alguma forma, Jesus não a repudiou e nem deu grande importância a esse detalhe da Lei.

Paulo cita o versículo acima, assim como também aconselha aos crentes que não casem, que não deixem as mulheres falar durante as celebrações, que a mulher não corte o cabelo por conta de ser esse o véu, que a ceia - celebrada em todos os "cultos" não seja de forma glutona, onde as pessoas se embebedavam. Hoje sabemos que essas recomendações específicas tinham relação com a cultura de época e especificamente para aquelas cidades e naquele período. Eram temporais.

Caso você observe isso de forma literal, queira aplicar a regra do cabelo, por exemplo, para as crentes da África, que possuem o tipo de cabelo diferenciado. Ou alegue ser prostituta aquela que raspa a cabeça por conta de um tratamento quimioterápico contra o câncer.

Também vale lembrar que existiam escravos no tempo de Paulo, e ele não condena a prática, embora recomende aos donos de escravos que, caso estes se convertam, tornam-se irmãos. Avisa aos maridos que eles comandam sobre as mulheres desde que as ame como Cristo amou a igreja.

Cabe a você analisar tudo o que está escrito e me responder: a irmã - fictícia? - está realmente amaldiçoada?

Por Zé Luís