10 de janeiro de 2016

Morte: aquele papo desagradável que teremos que ter



Dia desses, meu filho reclamava desse papo deprimente que ainda dominava as pautas em nossas últimas conversas familiares. Essa geração não gosta de gastar sua parca concentração em assuntos tão delicados e desagradáveis. Era inevitável, devido o ocorrido pouco antes do natal.

Era dia 22 de dezembro de 2015 quando a noticia chegou, de forma totalmente contemporânea: meu cunhado mudou a foto de perfil, informando-nos que estava de luto, mas sem avisar sobre a quem ele se referia, mas as um link acompanhou a postagem.

Não demorou para descobrirmos que sua mãe, avô e sobrinha faleceram na rodovia Rio-Santos em um acidente de carro a caminho de Bertioga. Todos moravam em São Paulo, em um prédio construído pelo então falecido avô, de noventa anos. A mãe, de sessenta, estava no volante na hora do impacto, e levava ele e a neta de sete anos. Iam para os preparativos da ceia de natal, a ser celebrada no litoral.

As filhas de meu cunhado já aguardavam a chegada na casa da praia, para se juntar à piscina da casa no dia que ainda estava quente, embora chuvoso.

Mas tudo acabou em um triplo velório aqui na cidade, obrigando a uma reunião familiar por um motivo indesejado, em volta dos corpos que não pediram para estar ali.

O pai da menina, vestida de princesa da Disney, pajeava mudo o caixão aberto, com o olhar perdido de quem não sabe o que responder diante de tamanha tristeza ou do cumprimento dos que enfileiravam para dar os pêsames.

A mãe, uma babalorixá com mais de 200 filhos-de-santo era pranteada pelos mesmos, que vieram em peso ao seu velório com as camisetas usadas no centro de umbanda. Espero que você, leitor evangélico, nesse ponto não seja cruel e comece a divagar sobre ser salvo ou não. Já vi crentes fazerem isso a beira do caixão e você não vai acreditar: só serve para quem ainda está vivo querer distância dos portadores desse papo "piedoso" de "Jesus te ama: aceite ou vá para o inferno". Não estou dizendo que seja certo ou errado, mas a quem traz consolo? Pense que poderia ser seu filho e que um defensor de outra linha teológica comece a defender que o destino deste jamais seria o descanso em Cristo.

Não era incomum vermos homossexuais com as camisetas brancas com o símbolo de sua religião, além do típico chapéu. Vi varias moças e suas namoradas, aos prantos: "E agora? onde seremos aceitas" dizia uma moça de cabelo curto e calças largas. Ali, naquela religião, elas são tratadas com uma naturalidade incomum em outras crenças cristãs. A morte da mãe de santo era tida como a perda de uma mãe carnal por alguns.

O avô tinha a sua volta os parentes mais velhos e empregados, e também não entendiam aquela partida repentina.

A mãe da menina, separada do pai, entrou em choque. Não tinha a mãe para lamentar a morte da filha, e não tinha a filha para lamentar a morte da mãe. Não tinha lágrimas e nem respondia às tentativas das pessoas em falar-lhe palavras inúteis de consolo.

Meu cunhado falava coisas desconectas, sobre como a situação podia ser diferente "se": SE ela não tivesse feito essa viagem, SE tivesse ido mais tarde ou mais cedo, SE o carro não tivesse derrapado ou tivesse aguardado a chuva ter passado.

 E Deus, claro, foi colocado na roda dos questionamentos. Nesses momentos, de uma forma ou outra, Ele sempre é lembrado.

Todos deixaremos de existir, mas sempre cremos ter um tempinho a mais. Acreditamos que deixaremos tudo arrumado, certo e completo. Haverá tempo para terminar o próximo post, de agendar nossa próxima viagem, de um ultimo beijo, de confessar e pedir perdão, temos certeza que o corpo estará lá, sempre respondendo ao que for solicitado.

Mas essa rotina de existir um dia termina. Cem por cento dos casos. Olhe a sua volta: todos mortos em breve. Eu sei: parece que ainda temos muito tempo, mas pergunte a qualquer um que esteja a beira do fim e ele lhe dirá: passou rápido demais.

"Não podia esperar mais um pouco?" - dizia o filho à mãe, a beira do caixão - "só mais esse natal...".

Não, cunhado: dia 23 acontecia o enterro e dois dias depois, você arrumou uma dor de dente, passando a meia-noite do dia 25 de dezembro sozinho, isolado em um pronto-socorro, esperando atendimento. Foi isso que você disse e é isso que a gente ouviu e não questionou.

Não. Não há muitas lições para tirar disso, mas dezenas podem ser aprendidas. Não vá falar do propósito sobrenatural nessa tragédia, não queira consolar explanando sobre os caminhos e os propósitos do Senhor. Não faça isso, ok?

A lição que nunca aceitamos das inevitáveis e - na maioria das vezes - inesperadas mortes, é que um dia será você ali. Ou sua esposa, mãe, pai, filho. O fim dos ciclos vem e não respeita data comemorativa, dias santos, dinheiro arrecadado, amores a serem conquistados, perdões a serem pedidos, sonhos a serem realizados.

E Deus?

Ele nunca escondeu nossa mortalidade. Ele avisou, assim que o homem caiu em seu egoísmo: certamente, morrerás. E mesmo com o decreto acontecendo, com ou sem Deus, não cremos.

Nossa dificuldade é aceitar isso: fomos feitos para ser eterno e isso ainda não saiu de nós.  Mesmo os que se matam, buscam um alívio da inexistência, como se houvesse sentido sentir alivio em coisas que já não existem.

Quis registrar isso por sempre ver essas coisas acontecendo no quintal alheio. Sempre vi as tragédias acontecerem longe, com estranhos que choram diante das câmeras da TV para passar no jornal sensacionalista. Hoje entendo um pouco mais a dor daqueles anônimos do jornal. Aconteceu na minha família.

E acontecerá na sua. Não esqueça. Aprenda a deixar a casa em ordem.

Caso você queira ver como foi: Veja aqui

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