9 de maio de 2011

Mundana ou divinamente inspirada?

por Zé Luís

“Não sou da opinião de que, pelo evangelho, todas as artes devessem ser banidas e lançados fora, como alguns fanáticos querem que creiamos. Quero ver todas as artes, principalmente a música, no serviço daquele que as criou e no-las deu. A música é a bela e gloriosa dádiva de Deus… A música transforma os homens em pessoas mais gentis, mais autocontroladas e razoáveis.”

“Não pretendo deixar para o Diabo as melhores melodias!”*

Lugar comum hoje entre os que amam a Palavra é encontrar aquele que se compromete a ser apologeta, defensor das verdades irrefutáveis compreendidas de forma inequivocada pelo nicho de estudo em que foi doutrinado.

A necessidade de fazer prevalecer sua crença lembra, em diversos casos, mais um ego querendo se sobressair sobre outro, e como mostra a História da humanidade, é a conquista de mais espaços em seu território, agregando o conquistado ao imenso legado para qual milita.

Atitude que muitas vezes nos conduz ao citado pelo Mestre, onde certo tipo de homem percorre céus e terras na busca de um neófito, um novo convertido, para no final, com suas doutrinas e ensinamentos, fazê-lo o mais condenável dos infernos. Confesso que demorei muito a entender essa frase de Jesus, até me deparar com a enxurrada de compreensões de determinados grupos e como a discordância – ou indiferença - destas me fazia abominável, condenável, herege, rebelde, feio, bobo, chato...

Seria Deus calvinista, arminianista, adventista ou mesmo cristão? Deus continua faiscando no monte Moriá a condenar os que não cumprem a risca seus mandamentos, os que comem carne de porco ou se movimentam em demasiado nos sábados? O Deus a quem tive lampejos nesta vida – e que foram suficientes para abraçá-lo – me condenaria por não ingressar em algum grupo que defende alguma teologia que termina com “ismo”(ou mesmo as inventadas com intenções nada celestiais, como arrecadações financeiras que viabilizem a vida das lideranças ou que divinizem quem a inventa)?

Se cantarolo um louvor no percurso da minha casa até o trabalho, devo investigar as origens desta canção antes que um raio, ou mesmo um semblante insatisfeito do Mestre me atinja? Sorte os apologistas não serem oniscientes, nossa vida seria uma chateação de dedos em riste.

Castelo Forte, hino composto por Lutero, foi uma canção parodiada por ele em cima de um cântico folclórico cantado pelos bêbados nas tavernas alemãs de sua época.

Além de gastar mais de dez anos traduzindo a bíblia para o idioma alemão, Lutero foi quem inventou o cântico congregacional, compondo salmos em linguagem simples para que o povo pudesse louvar a Deus e entender o que estava fazendo (na época, os cânticos litúrgicos eram feitos em latim apenas pelos oficiais da igreja).

Creio que isso deve ter gerado o que conhecemos como “choque de gerações”, onde muitos não aceitavam aquilo como “de Deus”, muitos devem ter se incomodado com as cantorias felizes da plebe que inundava as missas, chamados agora de culto, emocionados por poderem em seu idioma patrio que Deus é bom, e que morre por nós, mesmo sendo em um ritmo espúrio, usado em bares.

De fato, pouco demorou a surgir Calvinos, Arminianos e tantos outros, debatendo-se eternamente com seus versículos e bases irrefutáveis para que suas compreensões – tão antagônicas – fossem totalmente aceitáveis pela parte a quem combatem.

Deus deveria ser suficiente – penso eu – e Lutero, que como eu, via a ação do diabo em cima das obras humanas em benefício de sua causa autodestrutiva, cantava em cima das canções mais mundanas, louvores ao altíssimo, na intenção de levar o simples a Deus.

Pregar a Palavra é o mais importante, independente da motivação, mas confesso que a forma no lugar do conteúdo vem prestando um desserviço ao Reino.

Mais informações sobre Lutero e Castelo forte podem ser lidas aqui

*frase de Lutero