28 de fevereiro de 2017

Bandido bom

Hélio: Assim chamaremos meu ex-aluno de escola bíblica dominical.

Tive raiva de Hélio durante certo tempo. Não por ter sido um adolescente difícil. Não é isso.

Criado sozinho pela mãe evangélica do círculo de oração, era silencioso e observador. Sempre pareceu incomodado quando se descontrolava e desatava a gargalhar por causa das imbecilidades que eu usava durante as aulas, para ilustrar essa ou aquela passagem bíblica, ou situações absurdas de nosso convívio de crente.

Ajudei a alfabetiza-lo quando já passava dos quatorze, e ele nunca faltava na escolinha da igreja dominical, assim como sempre ia em casa falar sobre dos livros que começou a ler freneticamente. Amou C.S. Lewis logo após a aula onde eu explanei sobre quem era Aslam e que mundo era aquele leão havia criado – muito antes da Disney imaginar em produzir a série.

Ele cresceu – muito -  e chegou o tempo onde ele deveria escolher com quem queria se socializar, e como ali na comunidade local não havia tantas opções, o caminho da droga para quem não tem escolaridade acabou oferecendo mais atrativos e engolindo-o como a única opção financeira válida (para ele). Se afastou do grupo. A mãe dele sempre pediu ajuda em oração pelo filho – que levava essa vida às escondidas - que prometia dar a ela “através do seu trabalho” todo o conforto que o pai deixou de dar.

Não demorou e ele começou a usar o produto que deveria vender, e então a dívida com o tráfico fez ele ser marcado para morrer. Não tinha nem vinte anos quando a mãe entrou na boca de fumo e negociou a vida do filho -  que já estava amarrado literalmente - com o gerente da “biqueira”. A crente conseguiu. Não sei bem o que ela precisou vender em casa para pagar, já que a casa de tres comodos onde vivia com mais uma filha não tinha muito a oferecer.

Hélio foi para casa, voltou a frequentar a igreja, arrumou uma namoradinha, e começou a tocar bateria em alguns cultos.

Um dia descobri que ele, que havia se tornado uma celebridade por seu testemunho, colocava em dúvida minha vida intima e moral, e que meus alunos – entre eles, meus filhos – começavam a me olhar de forma diferente. Eu era realmente honesto em minha relação com minha esposa?

O menino que deu testemunho de livramento da morte na igreja, criado junto com meus garotos, agora colocava minha vida numa fofoca que poderia atingir meu casamento.

Nunca tive vontade ou disposição de ir tirar satisfação sobre o assunto. A tristeza e a decepção foram maiores, a ponto de roubar de mim a vontade de continuar falando sobre as coisas do Reino para adolescentes e jovens. Ele era uma das crianças que eu mais amei ensinar. Aquela era minha paga.
Aproveitei que meu trabalho oferecia essa opção e mantive então certa distância de todos.

Nunca deixei de ouvir histórias sobre ele, mesmo quando tornou a se afastar novamente do convívio dos “irmãos”. Um dos meus filhos o amava, e sempre tentava manter contato, apesar do reingresso na vida do crime, das surras que dava na namorada para conseguir mais dinheiro para comprar droga, das coisas que furtava da casa da mãe para o mesmo fim, e por fim, da prisão em flagrante por venda de droga, agora com quase trinta anos.

Pensei na ineficácia do que preguei e de como tentei mostrar a Graça contida nas Escrituras, das orações da mãe que nunca cessaram, do amor dos amigos que sempre tentaram manter – na medida do possível - proximidade (entenda que na vida do crime andar na linha é muito mais necessário do que fora: ofender a mãe não é como chatear o gerente do tráfico, e habitualmente, quando o castigo chega para o ofensor, habitualmente quem está junto tem que ser eliminado, para não haver testemunhas).

Hoje, a mãe sempre chega atrasada nos cultos de domingo: nunca deixa de visitar o filho na cadeia, e o que ele só pede uma coisa: livros.

Hélio, meu ex-aluno, criado com meus filhos, é oficialmente bandido.

Recentemente, ouvi algo da mãe dele em uma conversa entre irmãos: os outros bandidos souberam que ele sabia ler, que conhecia livros, e que sabia – além de ler! - Interpretar trechos confusos da bíblia. Isso fazia com que vários encarcerados o procurassem - com a bíblia na mão - para falar sobre o que Jesus queria dizer realmente naqueles trechos. É bom lembrar que muitos dos detentos são filhos de evangélicos.

Ele ensina o que aprendeu nas aulas de uma sala abafada, sem janelas, de seis metros quadrados, quando não tinha nem quinze anos. Explana para sujeitos que mataram, traficaram, roubaram, e que muitos queriam que estivessem mortos. São descartáveis e possivelmente serão enterrados em alguma vala comum mais dia, menos dia

Aquele menino que virou bandido, traficante, passa o tempo de prisão falando sobre o que aprendeu sobre a caminhada de Jesus na Terra para gente condenada como ele. Além disso, a mãe de Hélio ainda conversa com os “meninos” presos, já que a imensa maioria foi abandonada pela família, conforme avisado que fariam quando ingressaram no crime. Passam seus meses apenas na companhia dos outros detentos.

Ouvi isso e após meses, sem o mínimo de vontade de escrever, voltei até aqui nesse espasmo: a comunidade cristã brasileira vem se tornando cada vez mais escrota, e irreconhecível, se comparada ao que me evangelizou a mais de duas décadas passadas. A internet deu voz a todo tipo de gente que se acha mestre, que se sente especialista do assunto que pesquisou por nem trinta minutos, e segue agredindo, xingando, aplaudindo imbecis, no que a manada grita na moda.

Esse era um motivo.

Mas além disso, tinha esse ex-aluno que denunciava em sua história a certeza da minha grande inutilidade em querer falar sobre assuntos "espirituais" que pareciam não surtir efeito realmente eficaz em uma alma.

Agora, a culpa parece vir me rondar: parar de ensinar não poderia ter sido uma opção, já que eu não sabia para quando – e se - aquilo poderia ser usado. Eu não sei o tempo das coisas que Ele programa usar ou mesmo se aquilo será usado da forma que apresentado. Claro que ninguém consegue sondar Seus caminhos. Eu deveria apenas fazer o que minha alma me mandava fazer.

Meu consolo é saber que o Senhor também conhece a fragilidade de meu coração, e que jamais esconderia Dele – mesmo que fosse possível – a dor que me tomou por tanto tempo. Compreendo a necessidade de perdoar cada dia mais.

Feliz por Helio estar levando Cristo para bandidos na cadeia. Em breve, quem sabe, teremos irmãos detentos povoando o céu do lado de gente que os odeia.

Ironias.

3 de novembro de 2016

A batalha na"vida de inseto": o despertar.


No meu quarto há um aquário. Ela se chama TV. Um ou outro familiar a deixa ligada as vezes, e eu, por preguiça ou desanimo, deixo ligada, vomitando suas mentiras sobre o que é melhor para meu consumo ou o que o apresentador tem como opinião para eu tomar como meu. Eu sei: absurdo permitir que o lixo emitido ininterruptamente inunde os espaços dos cômodos da minha casa. Mas nosso mundo é um absurdo e ele, esse mundinho, é feito de gente como eu, absurda.

Em determinada hora, uma novela mostrava escravos negros, munidos de foices e facões, assistindo passivamente um jovem africando amarrado ser chicoteado por um único homem branco, o dono da fazenda. Eles pareciam não perceber que eram maioria e que aquele agressor não teria chance se eles, os escravizados, se dessem conta disso. Olhavam com revolta, mas estavam sem ação contra o espancamento usado para mostrar à comunidade escravizada o que acontecia com quem desobedecia qualquer regra imposta.

Lembrei do final da animação da Pixar: "Vida de Inseto".

As formigas tinham por tradição oferecer parte do alimento produzido aos violentos gafanhotos, até que o idiota do formigueiro resolveu tentar mudar aquela situação e - achando que contratava guerreiros - contratou um grupo circense de fora da aldeia.

Tudo dá errado. A trupe é desmascarada, o idiota - um jovem cheio de ideias e soluções - é expulso e deixa a aldeia sem saber que a rainha seria morta por seus agressores como exemplo para aqueles que ousam desobedecer as regras.

Ao saber da eminente tragédia, eles voltam. E novo fiasco na tentativa de libertar o formigueiro.

O líder dos gafanhotos resolve dar uma surra em Flik, a formiga rebelde, a idiota idealista que quer mudar o status quo (ou se preferir, dar às formigas o direito de ficar com aquilo que produziam).

O rosto de pânico dos gafanhotos, ao perceberem que as formigas despertavam, que elas finalmente entendiam que era a verdadeira força produtora, é impagável.

Opressores vagabundos batem em retirada com as mãos abanando, desmascarados, desmoralizados. 

"As formigas produzem a comida, as formigas ficam com a comida..." disse a princesa Atta, na cara do Hopper, o líder vagabundo, já sem forças para tentar convencer à multidão de formigas que até então manipulou.

Olhava aquilo e me perguntava: dã! Como não percebiam o quão grande e fortes eram? Qualquer um perceberia que eram maioria e que poderiam vencer aquele inimigo rapidamente.

Mundo absurdo, amigo.

Dizem que Deus andou pela Terra. Dizia: conhecereis a Verdade, e a Verdade libertaria. Também disse que a luz viria ao mundo mas os homens escolheriam as trevas.

Estranhamente, muitos dos que escolhem as trevas não são necessariamente os que lucram com o sistema. Muito simpatizantes do sistema fazem parte dos esmagados no formigueiro.

Essas tolas não entendem que o formigueiro não tem força quando a formiga trabalha individualmente, Creem que poderão ser gafanhotos um dia, que poderão enganar um grupo de seres esforçados e tirar deles, todos os dias, o fruto de seu trabalho. Fazendo como os opressores: usando o medo, a força, uma boa história que estimule sua ganância e faça desejar o mundo dos gafanhotos, onde se imaginem usando a roupa dos que o oprimiu, bebendo e comendo coisas de gafanhoto.

Enquanto isso, a vida passa, e os gafanhotos continuam comandando o formigueiro, pegando aquilo que as formigas acreditam dever a eles, e deixando que os Fliks da vida morram esmagados.



22 de maio de 2016

A inutilidade evangélica no combate aos demônios

Uma das dezenas de imagens no Google imagens na palavra "peça evangélica gospel"

Sempre me questiono nas peças teatrais apresentadas nas igrejas evangélicas quando tentam representar a influência do mal militando contra o bem. O maligno é, na imensa maioria das representações que assisti, feita por algum ator vestido de negro, com trejeitos arrogantes, com gargalhadas bruxescas e com um discurso óbvio – e ineficaz – sobre como domina os pobres desgraçados que não se enquadram às regras daquela denominação.

O discurso diabólico muda de denominação para denominação, de tempos em tempos. Você pode ser um humano sobre influencia demoníaca por usar saias muito curtas em determinado local e tempo de uma sociedade, ser condenável por não usar um véu, réu de condenação ao inferno por ter questionado alguma liderança desses núcleos religiosos. Ou apenas por cortar o cabelo ou chutar uma bola.

A maioria dessas igrejas tem seus diabos particulares, e os construirão segundo as necessidades doutrinárias de seus líderes.

O controle do sexo, o dízimo, a obediência inquestionável às necessidades de investimento local, a roupa decotada, a maquiagem, a frequência na igreja, o candidato ou o partido a ser votado: o diabo, através desses “atores, pode sair revelando suas mais secretas pautas e estratégias nas pequenas apresentações amadoras durante algum “congresso”.

Biblicamente falando, o judaísmo – autor de toda a bíblia anterior ao nascimento de Cristo - não enxerga o diabo como algo fora do controle de Deus. Satanás é mais uma ferramenta em Suas mãos.

Não há proibição no paraíso contra a ouvir as propostas de satã e nem tão pouco proibição a nenhuma criatura que seja usada por ele. Há sim uma ordem explicita de que determinado fruto do pomar do Éden não seja degustado, sobre pena de conhecimento da finitude humana, entre outras penalidades. Deus não ordena o afastamento do casal do convívio com qualquer um que possa ser colocado a prova pelo diabo.

Vemos, logo nos primeiros capítulos de Jó, Satanás entrando na presença de Deus juntamente com seus filhos. O capeta não parece um intruso, e o Todo-Poderoso o chama pelo nome, mostrando que sua presença não passou desapercebida. É o Todo-poderoso quem puxa assunto com o tal ser.

Embora essa ideia possa parecer estranha, vemos nas Escrituras um espirito de mentira sendo enviado por Deus para encher a boca de - falsos - profetas na intenção de punir um rei injusto (2ª Cr 18). Temos um anjo vindo destruir todo um exército inimigo (2ª Cr 32) - o que para o outro povo seria considerado um devastador demônio. O que dizer sobre o anjo da morte na 10ª praga do Egito (Ex 11)- que só não atinge o povo israelita por estes saberem a forma de evitar sua ação letal)?

Vemos demônios expulsos por Cristo que “clamam” (como quem lamentam, já que parecem reivindicar a legitimidade de suas ações nessa terra, onde Cristo abrevia seus trabalhos). Eles apelam à Lei, mas o Cristo ignora-os com seu Amor, não se contendo dentro das obrigações impostas pelas Escrituras.

O mal é sutil. Não anda de preto e nem tão pouco gargalha. Cheiroso, bem vestido, sabe ser cordial. Como ouvi de uma anciã certa vez, ele anda de “sapatilha de veludo”, procurando espaços onde possam fazer morada, assim como as doenças procuram corpos menos resistentes para se propagar.

As pessoas caem nas armadilhas que elas mesmo preparam: muitas sabem que tem seus limites e suas necessidades intimas. Já vi não poucos abominarem os adúlteros para depois caírem na mesma situação. O erro está exatamente aí: abomina-se o outro de tal forma que imaginamos um casal de possessos cometendo maldades como as dos piores vilões de novela. Nosso imaginário imagina que são constantemente maus, e nessa fantasia, são perversos em todas as áreas.

Quando enfim, estes que excomungam os infiéis de seus casamentos, cometem o mesmo erro, são capazes de garantir que o caso deles é totalmente diferente, que o sentimento que os conduziu àquele ato é legitimo e que algo mais profundo, puro –e irresistível – os fez tomar essa medida. Claro: a partir de agora serão vistos como abomináveis como os outros que julgavam, e sem misericórdia, apedrejados se pudessem ser.

Eles viam o erro e achavam que estavam acima disso. Supunham ser maiores que a capacidade sedutora do pecado.

Alguns, após a queda, exercitarão a misericórdia pela compaixão dos que caem. Outros continuarão no time dos que apedrejam os malditos “pecadores”.

O uso de máscaras mantém essa sobrevida moral nos recintos religiosos, e acaba sendo uma constante entre os fornicadores também, os que tem suas vidinhas sexuais ativas, mas fingem que isso não acontece. Todo mundo aceita mesmo sabendo, precisam deles para tocar o sistema religioso local.

Conheço, claro, pessoas capazes de viver sem sexo entre os solteiros. Uma irmã próxima vive se vangloriando de seu controle e de sua inatividade desde a conversão que já chega a quase duas décadas. Ainda fala sobre o dia que casará, e que tirará esse atraso. Ela tem quarenta.

A questão é que, dos pecados, a luxuria – desejo descontrolado por sexo - é um de menores consequências e de fácil controle (assim como a gula), já que, por ser apetite, se consome em si mesmo.

Você não verá pessoas em igrejas punindo um líder pela ação demoníaca em seu pecado de soberba, por exemplo. Você certamente cederá à sua vaidade e o aplaudirá, por saber que isso o agrada, elogiará seu sermão ou carro novo, sem se dar conta que está diante do pai de todos os males. A pessoa soberba não aceita nada que vá de encontro a si mesmo, e matará inclusive, para que seus planos pessoais, bons ou não, sejam aceitos. Questão de ego apenas.

O diabo? O diabo tem o espaço que você dá. Ele não fala como exu ou gargalha como pomba-gira. Ele é o anjo da morte que leva quem tem que levar, mas as chaves de seu trabalho estão nas mãos de quem tem o tempo de sua vida em Seus bolsos.

Certo rei ganhou 15 anos a mais em sua existência após apresentar argumentos em sua oração (2Rs 20,1;6). Certamente, nesses 15 anos este rei acabou cometendo erros que prejudicaram – e muito – o reino que deixou, já que gerou Manassés, o príncipe herdeiro mais cruel que Israel teve. Perceba que satanás não está incluído nos atos perversos desse sucessor, embora a crueldade dele seja atribuída ao inferno na grande maioria das vezes.

Deus não impede a ação “maligna” de satanás no deserto sobre a vida do Cristo. Antes, o Espirito do próprio Deus o leva para isso.

Ainda em Apocalipse, o diabo, preso, é liberto por um anjo - como quem pega um passarinho em uma gaiola – e o libera para fazer seu trabalho pelas nações, conduzindo mentes como se lida com uma única massa a ir contra o próprio Deus.

A ineficácia da igreja em seu intuito de vencer as forças malignas do mal está em achar que este mal tem força sobre a vida de alguém que é protegido por Deus. A igreja perseguida espalhou o evangelho de Jesus pelo mundo. Os discípulos de Deus só saíram do conforto de Jerusalém porque não havia mais Jerusalém quando Massada caiu pelas mãos dos romanos.

Contam os naturalistas que a águia monta seu ninho com as mais confortáveis penas, e as tira gradativamente para que o filhote nunca se sinta totalmente confortável nessa condição. Se o Criador encuca na cabeça de suas criações “irracionais “ tal raciocínio, por que agiria diferente no trato de seres que fez segundo sua imagem e semelhança? Somos capazes de justificar nossos atos através das necessidades mais mesquinhas. Capazes de aceitar as maiores bobagens por contar dos piores e mais vis sentimentos narcisistas.

O capeta?

Está ali e acolá, buscando a quem tragar, como o ladrão que não vê problema em roubar, a prostituta que não cansa de usar seu corpo para ganhar seu dinheiro, como o leão que não tem moralidade quando mata qualquer outro inocente no intuito simples de saciar sua fome.

Alguém imagina um leão abdicando de comer o filhote do servo por que seus pais se entristecerão com a morte do filho? O predador faz o que tem que fazer. Questão de sobrevivência.

E se isso ainda não se faz suficiente em seu entendimento: Tiago, em sua carta, deixa claro que as tentações nas quais os homens são submetidos partem única exclusivamente de suas fraquezas.

Após ouvir tantas peças e ilustrações pobres sobre Lúcifer (nome que nem consta na bíblia), o único culpado pelas mazelas humanas segundo muitos no meio, cheguei à conclusão que não temos como combater o que não se conhece. Ainda hoje adotamos a ideia medieval e tememos um bicho papão que vive debaixo da cama, recheando filmes de terror com aquela ideia de maldade sobrenatural, enquanto vemos todos os dias assassinatos, falcatruas, drogas, estupros, guerras, torturas, fome, miséria, injustiças e mais injustiças. Todos na conta de um ser que cheira enxofre, chifres e cauda.


25 de abril de 2016

Testemunhos estranhos - relatos anônimos.

Pode ser que este seja apenas um conto fictício. Talvez seja algo enviado por alguém que vive esse dilema de bastidores e resolveu compartilhar o relato. 


A intenção não é julgar. Apenas apresentar o episódio e, quem sabe, o leitor tenha soluções a propor.


“O que eu quero é que meu marido tenha um pênis grande, pastor” – contou ele a esposa, logo após o jantar, quando as crianças já estavam em um sono pesado.

Era mais um dia no escritório pastoral. A pedido do marido da mulher que fez a declaração acima, o pastor chamou o casal, membros assíduos de sua igreja, para aconselhamento. Seria mais uma tentativa de reconciliar aquele casamento em vias de separação. A esposa irredutível, diante dos argumentos do líder espiritual, de que Deus tudo poderia mudar como tinha feito com diversos, proferiu a sentença acima.

Ela queria algo que as orações não podiam dar. Acreditava que a plenitude de sua sexualidade só podia ser alcançada daquela forma.

- Não é culpa dele, pastor. Mas ele simplesmente não tem como resolver minha situação dentro do que espero. Não é da natureza dele, e a minha exige mais. O senhor afirma que eu devo manter meu convívio com ele, mesmo sabendo que minha fidelidade está em risco, e que meu desejo exige mais do que minha disciplina é capaz de suportar. Tudo bem: você pode me convencer agora que isso pode ser superado. Mas o senhor estará lá pelos anos a fio, todas as vezes que a necessidade se intensificar?

-Tentei argumentar – contava ele à jovem esposa, que ouvia a tudo em silêncio, enquanto mexia distraída no celular - Falei sobre a batalha da carne contra o espírito, do que Deus pensa sobre o divórcio, da situação difícil que eles ficariam diante da igreja. Mas ela saiu de lá, irredutível, chorando diante do marido que amava, mas que era incapaz de ser homem para ela.

- Duro, não? - comentou Graziela, sem tirar os olhos do celular. – Quem diria que a irmã Lurdinha fosse capaz de algo tão cruel!
- Isso vai virar motivo de conversa por muito tempo na congregação. Todos sabemos de nossas sinas e de como devemos aceitar nossos destinos. O que ela fez foi uma loucura!
-Infelizmente, nosso meio não lida muito bem com essas atitudes... – disse ela, enquanto desligava a TV com um clique rápido, sem se dar conta da programação por ela apresentada.
- Não é uma questão de aceitação! É a Palavra de Deus que ordena...- corrigiu o pastor.
- Você lembra quando esse casal se casou? Eles eram novos, nem sabiam o que faziam. Lurdinha nunca escondeu seu desejo de casar para ter relações sexuais regulares. Paulinho parecia compartilhar da ideia...
- Sim. Fui eu quem aconselhou aqueles dois – disse ele, enquanto abria o baleiro de vidro na mesa de centro da sala e desembalava um bombom. Após breve pausa da primeira mordida, continuou
– Ela sempre falou abertamente de seus desejos sexuais, e Paulo apenas ria nervoso. Dois virgens, apesar da menina, desde o começo, ter um apetite bem maior do que o namoradinho que a escolhera quando orava. Nem imaginava que as coisas chegariam a esse ponto.
- Sexo nunca é um assunto muito fácil entre os crentes. Os que não se interessam - ou ignoram a matéria - amam se imaginar como espiritualmente superiores.
- Não penso assim, não. - comentou ele, franzindo a sobrancelha, pensativo.

Graziela não respondeu, e agora, o pastor também sacava seu celular, ao receber alguma mensagem de texto.
- Vou preparar o sermão de domingo em meu escritório. Orar a respeito.
- Tudo bem. Vou deitar em breve. Estou bem cansada.

Dirigindo-se para seu pequeno escritório, trancou-se. Algo no celular o fez buscar privacidade usando a desculpa de preparar o sermão.

Ela percebeu, claro. Não era a primeira vez que o comportamento se repetia, e comentar o assunto já fizeram ter discussões que quase os fizeram a quase se agredir fisicamente.

Ela sorriu assim que ouviu a chave da porta rodar por dentro no trinco.

Alguém do outro lado do aparelho celular mandava imagens registradas de suas genitais para ela.
- Acho que Lurdinha ficaria satisfeita com esse...

Foi ate o banheiro e retribui as fotos recebidas, mostrando o mesmo tema enviando, enquanto tomava um banho desnecessário.


2 de abril de 2016

Perdendo minha religião - um comentário.

Após postar essa música em meu perfil pessoal, “Loosing my Religion”, R.E.M., gravada em 1991, comentei sobre a profundidade da letra na legenda e um amigo acabou questionando a que profundidade me referia.

Talvez a letra fale mais comigo por conta da minha experiência pessoal com o assunto “religião”.



Um dia você levanta. Um dia como outro qualquer. Uma quinta ou terça. Tanto faz.

Mas...

Percebe que algo já não cabe mais na sua alma, e não entende bem o que é. Você cresceu cercado de informações e crenças, costumes e hábitos, e não há razão para serem confrontados. Mas o são. De forma involuntária tudo aquilo é colocado em um banco de réus.
Todo o sistema religioso, suas crenças e seus porquês perdem – de uma hora para outra - o sentido, a ponto de ficarem irremediavelmente obsoletos.

A canção fala sobre essa constatação quando, com todo cuidado, o interprete confessa que a fé dentro dos parâmetros ensinados não tem mais poder sobre ele. Acuado, como no canto da existência, sente o foco dos “holofotes” da vida confrontarem sua lógica e sua religião ir se diluindo na lógica.

Ele sente que seu ouvinte ri inicialmente, canta, mas a canção acaba com ele chorando e sem motivos de tentar insistir em suas crenças. Ele reconhece que a vida é bem maior que ele, e que este não é ela. Mas tudo pode não passar de fantasias, apenas sonhos, ilusões.
Talvez um dia você se depare com essa situação, durante um culto ou gira, missa ou reza, quando tudo começa a fazer um sentido que aponta apenas para fora daquele entendimento.

Quem, em algum dia, nunca lutou contra o desmentido irrefutável sobre a clara bobagem pregada em um púlpito? Quem inocentemente questionou o sistema montado de entendimento, como a interpretação definitiva de algo que mesmo o autor da teologia não tem bem certeza.

A delicadeza no qual o autor da letra apresenta seus argumentos realça enormemente com os atuais neo-ateus, verdadeiros trolls, que infestam as redes sociais com suas costumeiras truculências quando se dirigem aos que ainda creem, e declaram serem superiores por não estarem atados às crenças de um deus imaginário.

Confesso que já fui truculento com ateus. Gente inteligente que questiona fatos (não os que caçoam de sua crença por ela ser claramente infantil). Você se sente agredido pela realidade apresentada, cultura, ciência, História, apesar que lá na alma, em algum lugar, Deus está em silêncio, aguardando sua decisão diante do apresentado.

Sim, amigo: o amor de muitos esfriará – como descrito pelo Cristo - devido aos interesses dos homens em embutir nas ideias religiosas suas distorções para alcançar benefício próprio. A simplicidade do contato com nosso Deus geralmente é substituída por sistemas que acabam por se perverter, como qualquer religião.

R.E.M. denuncia que o pensamento humano não ficará imerso em sistemas absurdos apenas porque alguem disse que aquilo é “sagrado” e, portanto, não deve ser questionado.

Claro: quando começamos rebeldemente a perceber a escassez de sagrados em nossa lista conhecida na vida, notamos, angustiados, que talvez boa parte de nosso entendimento não passou de um sonho.

Segue a tradução da letra.

Perdendo Minha Religião
A vida é maior
É maior do que você
E você não é eu
Os extremos que eu irei até
A distância em seus olhos
Oh, não, eu falei demais
Eu comecei isso tudo
Aquele sou eu no canto
Aquele sou eu no centro das atenções
Perdendo minha religião
Tentando me manter com você
E eu não sei se eu consigo fazer isso
Oh, não, eu falei demais
Eu não disse o suficiente
Eu achei que ouvi você rindo
Eu achei que ouvi você cantar
Eu acho que pensei ter visto você tentar
Cada sussurro
De cada hora de vigília
Estou escolhendo minhas confissões
Tentando ficar de olho em você
Como um bobo magoado, perdido e cego
Oh, não, eu falei demais
Eu comecei isso tudo
Considere isto
Considere isto
A dica do século
Considere isto
O deslize que me deixou
De joelhos no chão
O que aconteceria se todas essas fantasias
Se tornassem realidade?
Agora eu falei demais
Eu achei que ouvi você rindo
Eu achei que ouvi você cantar
Eu acho que pensei ter visto você tentar
Mas aquilo foi apenas um sonho
Aquilo foi apenas um sonho
Aquele sou eu no canto
Aquele sou eu no centro das atenções
Perdendo minha religião
Tentando me manter com você
E eu não sei se eu consigo fazer isso
Oh, não, eu falei demais
Eu não disse o suficiente
Eu achei que ouvi você rindo
Eu achei que ouvi você cantar
Eu acho que pensei ter visto você tentar
Mas aquilo foi apenas um sonho
Tente... Chore... Por quê? ... Tente
Aquilo foi apenas um sonho, apenas um sonho
Apenas um sonho, um sonho