segunda-feira, 17 de junho de 2013

Por que agora, Brasil?


Se você pudesse ter alguma informação jornalística imparcial, sem interesses político, nem revanchismo de partido nenhum, o que seria dito? leia a reportagem, vista no Espanhol El País:

Está gerando perplexidade, dentro e fora do país, a crise repentina no Brasil com a ascensão de protestos de rua, primeiro nas cidades ricas de São Paulo e Rio, e agora espalhando-se por todo o país e até mesmo os brasileiros que vivem fora do país.

No momento, há mais perguntas para entender sobre o que está acontecendo, do que respostas para elas. Existe apenas um certo consenso de que o Brasil, até então invejado por sua experiência internacional, parece sofrer uma espécie de esquizofrenia ou paradoxo que ainda tem de ser analisada e explicada.

Vamos começar com algumas perguntas:

Por que agora emerge um movimento de protesto, quando há dez anos, o Brasil viveu um êxito aplaudido pelo mundo? É o Brasil pior hoje do que há dez anos atrás? Não, é melhor. Pelo menos é mais rico, tem menos pobres e enriquecem. É mais democrático e menos desigual.

Como é, então, que a presidente Dilma Rousseff, um consenso popular de 75%, um recorde que superou o do popular Lula da Silva, ser vaiada várias vezes na abertura da Copa das Confederações , em Brasília, por quase 80 mil torcedores de classe média que pagaram até US $ 400 por um bilhete?

Por que jovens que não utilizam transporte público – que possuem carros, impensáveis há dez anos - foram para as ruas para protestar contra o aumento do preço dos transportes públicos ?

Por que estudantes de famílias que até recentemente nem sonhavam em ver seus filhos pisando em um colégio estão protestando?

Por que manifestantes de classe reclamam da pobreza, se pela primeira vez na sua vida são capazes de comprar uma geladeira, uma máquina de lavar roupa, televisão e até mesmo uma moto ou um carro usado?

Por que o Brasil, muito orgulhoso de seu futebol, parece ser agora contra a Copa do Mundo chegando a manchar a abertura da Copa das Confederações com uma demonstração que produziu ferimentos, prisões e medo nos fãs que foram ao estádio?

Por que esses protestos, que chegaram a ser violento, em um país invejado até mesmo pela Europa e pelos Estados Unidos por sua taxa de desemprego quase zero?

Por que protestos nas favelas onde as pessoas tiveram sua renda dobrada e aos poucos se recupera a paz que a droga levou?

Por que de repente os índios se levantaram em armas, já que já possuem 13% do país e tem o Supremo sempre ao lado de suas reivindicações?

É que os brasileiros são ingratos para quem ter feito o melhor?

As respostas para todas essas perguntas que ocorrem, começando com os políticos, uma espécie de perplexidade e espanto, poderia ser resumida em algumas questões.

Primeiro, pode-se dizer que, paradoxalmente, a culpa é de quem deu ao pobre um mínimo de dignidade: a renda não miserável, a possibilidade de ter uma conta bancária e acesso a crédito para comprar o que sempre foi um sonho para eles (eletrodomésticos, uma moto ou um carro).

Talvez o paradoxo é devido a isso: ter colocado os filhos dos pobres na escola, que permitiram aos jovens, todos brancos, negros, indígenas, pobres ou não, ir para a faculdade, para ter livre acesso a saúde, tendo conseguido tudo o que transformou o Brasil em 20 anos no país quase do primeiro mundo.

Os pobres chegados à nova classe média tornaram-se conscientes de dado um salto quântico em matéria de consumo e agora querem mais. Eles querem, por exemplo, serviços públicos de primeiro mundo. Querem uma escola com qualidade, o que ainda não existe, quer uma universidade não politizada, ideológica ou burocrática. Eles querem modernidade, dinamismo, para prepará-los para o trabalho futuro.

Eles querem que os hospitais com dignidade, sem meses de espera, sem filas desumanas, onde sejam são tratados como pessoas. Sabem que 25 bebês morrem em 15 dias em um hospital de Belém, no Pará.

E eles querem qualquer coisa a mais do que o atual cenário político: uma democracia mais madura, em que a polícia não continue agindo como ditadura, eles querem jogos que não são, nas palavras de Lula, um "negócio" para ficar rico, eles querem uma democracia onde exista uma oposição capaz de balancear o poder de controle político.

Dos políticos esperam menos carga de tributos e corrupção; quer menos desperdício em obras que consideram inúteis, quando ainda faltam oito milhões de casas para as famílias que querem uma justiça com menos impunidade, querem diferenças sociais menos abissais. Eles querem ver na cadeia os políticos corruptos.

Querem o impossível? Não. Ao contrário do movimentos de 68, que queriam mudar o mundo, os brasileiros insatisfeitos com os serviços públicos querem ser como o primeiro mundo. Eles querem um Brasil melhor. Nada mais.

Em última análise, querem exatamente o que lhes foi ensinado: querem ser mais felizes - ou menos infeliz - do que eram no passado.

Já ouvi algumas pessoas dizerem: "Mas o que mais essas pessoas querem?" A pergunta me faz lembrar de algumas famílias em que depois de criarem todos os filhos, acham esse tipo de reivindicação uma desnecessidade rebelde.

Às vezes os pais esquecem que tudo o que lhe faltavam, para os jovens é essencial: a atenção, a preocupação que eles esperam não bate às vezes com o que é oferecido. Não precisam somente de auxílio, alguém que lhes ensine,levando-os pela mão, eles querem aprender a ser protagonistas.

E os brasileiros mais jovens, que cresceram e se tornaram conscientes não só do que já têm, mas ainda do que podem alcançar falta apenas permitir que sejam os protagonistas de sua própria história, especialmente quando mostram ser extremamente criativos.

Se eles fizerem isso, não adicionarão violência a violência já existente, já que este país maravilhoso sempre preferiu a paz à guerra. E não deixe que os políticos busquem dispersar com seus cavalos de batalha qualquer tentativa de protesto, na busca de esvaziar o conteúdo do mesmo.

Em uma faixa onde se lia ontem: "País mudo é um país que não muda." E também, levou a polícia: "Não atire em meus sonhos." Ninguém pode negar a uma mulher o direito de sonhar?

sábado, 15 de junho de 2013

Infância arruinada: Criança aos prantos ao descobrir que Robert Downey Jr. era apenas um ator.


A foto flagrou o exato momento que o o ator que interpreta o Homem de Ferro, 48 anos, veio conhecer o garoto Jaxson Denno de um ano e seis meses,de Suderland, Massachusetts,EUA, e este veio sem o habitual uniforme de ferro visto nos filmes.

Desilusão tão cedo assim é tão triste. Refiro-me a cara do pobre ator... rsrsrs

domingo, 9 de junho de 2013

Pai entrega a filha ao noivo

 Do filme: A Megera Domada


Convivência em família nem sempre é fácil. Sei bem disso(sei que se alguém me conhece bem, essa declaração parece estranha, mas não é: faço questão de manter a distância exata para não incomodar ou ser incomodado de forma insuportável. O problema é que temos a tendência a aproximação).

Entregar uma noiva apaixonada a um bom homem que a ama não é tarefa difícil... desde que você seja um bom pai, esse homem bom a quer como sua noiva, e o mais importante: que essa mulher tenha se submetido ao pai nos ensinamentos e se manteve dentro daquilo que o pai o ensinou...

A Igreja, a reunião de pessoas em volta da ideia que Jesus Cristo é Deus, é comumente conhecida como "Noiva".

Creio que essa analogia poderia ser aplicada aqui, mas é o Pai do Noivo quem prepara a "futura esposa". O pai da noiva, na analogia, quer mais é que a noiva se perca solteira, drogada, bêbada e prostituída.

Certamente, se a noiva que ali está fosse a Igreja, o pai da mesma não estaria ali, nos emocionando com um discurso apaixonado. Ele, esse mundão que nos gera, se pudesse estaria lá, proferindo insultos e maldições, lamentando a brancura dos vestidos daquela que costumava andar imunda pelos cantos da terra, e agora, imaculada, linda, é entregue ao Noivo três vezes Santíssimo.

Mas por que uma cena do filme  - baseado na obra de Willian Shakespeare - A Megera Domada?

Quando a noiva é vendida ao noivo ela se mostra uma mulher horrível, e o homem soube lidar com isso. Se ela sabia ser ruim, o então marido, podia ser bem pior. Até que um dia, depois de muita tribulação, ela soube o que era ser uma esposa, a ponto de ensinar as outras beldades como deveriam se portar diante de um homem.

Filme velho e bom.

sábado, 8 de junho de 2013

E então, a morte aparece...



É cômico? Sim, claro! Mas nesse momento, enquanto você riu vendo o trecho dessa velha esquete, ela - a morte -  já levou mais alguns, as vezes discretamente, absurdamente em outros casos.

O mais absurdo? É que: o que ela disse - que em 120 anos, não haverão mais nenhum dos que estão vivos agora, milhares de milhares que respiram sobre o planeta - não nos comove, é sempre ao outro que ela se refere. Como os assaltos da TV: que triste acontece com "os outros".

Sim - eu creio: um dia nos encontraremos com o Criador das almas, e lembraremos com exata noção o quanto ignoramos o justo viver nessa terra, já que quando éramos criança sabíamos instintivamente o certo e o errado a não fazer. Preferimos as malicias aprendidas com a digestão dos nacos do fruto do conhecimento do bem e do mal, e que nos traz inevitavelmente à ceifadora de almas.

Já, já, meu amigo, seremos nós.

Eu, o que redige essas letras pobres, uma presença invisível em sua mente que distingue e decifra letras em português, posso estar apenas, sem saber, escrevendo um chato epitáfio. Ou você, que como toda criatura criada por Deus, por mais que se esforce, não consegue crer que é realmente mortal, e pode estar diante de sua última leitura, o que seria realmente deprimente

Por isso, procure ler coisas melhores... (sorrio enquanto redijo isso).

Experimente Dostoiewsky, Saramago, C.S.Lewis, Fernando Pessoa, Gabriel Garcia Marques, e tantos outros que cometerei a injustiça de não citar.

Procure encher seu corpo com coisas mais saudáveis, permitir que sua mente beba apenas o que realmente vale a pena, não deixando que um cérebro perfeito como o seu seja devastado por lixo derramado por tudo quanto é porcaria que inunda nossos cinco sentidos.

Que você possa avaliar o momento em que você esteja fechando os olhos e diga: vali a pena?

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Reconversão num mundo sem igrejas


Carta mandada por Janaína Negreiros Person, uma de minhas 4 irmãs, residente já há alguns anos na Suécia.

Partes desse relato foram ocultados. Creio que a intenção aqui não é dizer qual a igreja é a (in?)eficaz, mesmo porque muitos passam por essa necessidade de um 2º entendimento.

Oi Ju,

Já faz tempo que eu to querendo te escrever, mas com duas filhas nunca dá certo. Te escrevo e você faz o que bem entender com a minha mensagem.

Quando me converti pela primeira vez, há mais ou menos dez anos, o fiz porque estava desesperada, precisando encontrar uma saída para os problemas que tinha, uma sensação de falta incrível na alma, que me doía e me fazia chorar constantemente. Quando fui batizada na XXXXXXXXXXX, me senti renovada, quase tomada por uma paz constante, mas apenas por um tempinho. Logo, bem rapidinho (acho que pelo fato de eu não ter entendido o “espírito da coisa”), começou a insatisfação, a bronca, a raiva de não ver o resultado que eu queria.

Antes do batizado era assim: Meu então namorado sueco de dois anos e meio, que eu achava que amava, já começava a me ignorar, mas mesmo assim pedi demissão do meu trabalho para começar minha vida em outro país com ele, estava com problemas bem grandes em casa, fui roubada dentro da minha própria casa por gente bem próxima. Sentia-me um peixe fora d'água entre meus amigos, que pareciam se tornar poucos, cada vez mais poucos.

Tinha que mudar de vida e aí, conversando com o irmão da minha amiga crente, chegamos à conclusão de que o que eu necessitava era algo novo, precisava entender o sentido disso tudo. Ele, com a bíblia na mão me perguntou se eu queria aceitar Jesus na minha vida. Titubeei por alguns minutos: pensei que todos com quem eu tinha contato iam gozar de mim, mas mesmo assim resolvi aceitar o que me propôs este irmão da minha amiga. Essa minha amiga então passou a me levar em sua igreja e lá finalmente fui batizada.

E agora, com essa chave na mão, tudo daria certo, passaria a me sentir bem melhor do que antes. É isso aí! bye bye tristeza! Estava certa de que a vida passaria a sorrir pra mim.

Mas acontece que nada saiu como eu havia planejado. As coisas começaram a sair do me controle, mudei da minha casa no Brasil, fui morar em um país frio e estranho pra mim até então, meu então namorado disse com todas as letras que não estava mais afim e que eu não poderia contar com sua ajuda, minha mãe (nossa: ela é babalorixá de umbanda), posso afirmar, não ficou super orgulhosa da minha nova “religião”, e eu caí aqui neste novo país, num grupo de religiosos bastante... como eu posso dizer? bastante “praticante”, se é que vc me entende (gente neo-pentecostal num país de maioria ateia).

Comecei a viver minha vida neste novo país auto-denominado secularizado, e passei a detestar muitas coisas: o grupo religioso que me rodeava, o fato deles não terem respostas para as minhas perguntas e nem gostarem de escutá-las. Na minha cabeça, eles não passavam de uns fundamentalistas, que queriam as coisas do jeito que eles queriam.

Tudo me aborreceu. Senti-me só no frio de 18 graus negativos. Sentia-me só, principalmente porque buscava no meu ex-namorado um conforto que eu não conseguía encontrar em nenhum outro lugar. Eu lembro que, na minha ira, eu pensava: que Deus é este que não me dá o que eu peço? Que Deus é este que me deixa sofrer desse jeito? Já virei crente não virei? Então? Por que não responde minhas orações e faz logo o que eu quero de uma vez?

Que decepção, que grande decepção. Se era isso aqui ser crente: valeu, obrigadão, mas eu não quero mais. Não quero esse Deus que não ouve minhas orações mais não. Quero outra vida pra mim. Claro que eu não vou sair por aí fazendo o que der na telha, porque moralidade eu sempre tive, mas por outro lado, porque não fazer o básico? Sabe o basicão mesmo? Aquilo que um monte de crente e descrente faz? que sua sobrinha faz? Seu vizinho? A tiazinha super crente lá da sua igreja faz?

Então... isso aí mesmo: comecei a ler a bíblia como se fosse um livro de auto-ajuda, ou a simplesmente lê-la com displicência, comecei a viver mais de acordo com as minhas vontades, e daí, de vez em quando, só pra não correr o risco de ir pro inferno, falava pra Deus: perdão por isso que eu fiz Deus, não foi minha intenção. Mas era minha intenção sim. Fazia o que eu queria e ainda tinha a cara de pau de orar, pedir perdão e ainda por cima mentir pra Deus. Ai ai... quantas noites eu passei esperando que Deus me devolvesse meu ex namorado ou que pelo menos tivesse a boa vontade de me dar um melhor, quantos dias eu passei me queixando da falta de atenção de Deus para comigo. Justo eu que sou tão legalzona, não faço mal a seu ninguém. Deus tinha resolvido me zoar (eu pensando comigo!), e nesse caso eu iria zoar também.

Os anos foram passando. Eu conheci o homem com quem estou casada agora há 8 anos. Estava me sentindo assim meio morna, sabe? Acreditava em Deus e acho que nunca deixei de acreditar, mas não era tão importante crer ou não. Era algo mais ou menos mecânico. Eu acordava, fazia o que tinha que fazer durante o meu dia e quando ia me deitar, dormia e pronto. Não ficava pensando muito na existência ou não de Deus. Deixa pra lá... dá o maior trabalho passar todo o tempo pensando Nele. As vezes eu até chegava a pensar que não acreditava mais, era porque de não pensar mais Nele tinha a sensação de que Ele não era, não estava em nenhum lugar e eu ainda assim vivia e até que bem. Passei muitos anos na frieza da indiferença com Deus. Era quase como se Ele tivesse se tornado uma fumaça esvaída no ar. Que medo!

Mas calma aí porque as coisas melhoraram pro meu lado. Vou pular toda a parte do meu relacionamento com o meu marido e de como eu aos poucos fui buscando mais e mais a Deus, porque esta é outra historia e daria muitas páginas.

O que posso dizer neste momento é que agora, depois do nascimento da nossa segunda filha, eu comecei a sentir a necessidade de buscá-Lo e olha que não foi porque eu estivesse com problema não. Simplesmente aconteceu de eu ter tempo pra tentar entender a Deus. Sei que é muita pretensão minha achar que eu entendo, mas o que eu estou querendo dizer é que o Espírito Santo de Deus deve ter cansado da folga que eu quis dar pra Ele e voltou... assim, de repente!

Você sabe que as licenças- maternidade aqui são longuíssimas. Comecei então a me interessar mais e mais pelos princípios básicos ensinados por Jesus e uma coisa foi levando à outra e quando vi estava pedindo dicas de leitura cristã pra você, ouvindo de coração o que o meu marido vinha lendo sobre o tema e refletindo e daí já não me sentia mais confortável de estar sem Ele. Pedi encarecidamente que Ele voltasse e pra ficar.

Tenho entendido que meu modo de acreditar de antes deixava muito a desejar e que aqueles pedidinhos ridículos que eu fazia não tinham nada a ver com Deus... e isso graças a muitas conversas com meu marido. Tenho, aos poucos, deixado de lado, ou pelo menos tentado deixar de lado o meu "eu". Não quero mais! Cansei de mim e das minhas mazelas. Cansei de pedir um monte pra Deus. Cansei de acordar todo dia e pedir um monte de absurdos. Cansei de mentir pra Deus e de fingir que sou boazinha e quase realmente crer que sou. Cansei! To podre. Tem que jogar fora senão tudo pelo menos tudo o que tem por fora, porque por dentro tenho pedido que Deus tome conta e salve, nem que seja um pedacinho de mim, pra logo todo o resto ir se recuperando.

Tenho orado o Pai Nosso, ensinado por Jesus, todos os dias e tenho realmente crido que esta é a melhor maneira de orar. Não tem outra. Já não quero mais querer nada, já não desejo nada. Honestamente te digo que esta foi a melhor coisa que fiz e tenho feito.

Aprendi que a cada dia devemos fazer o Pai Nosso e pedir apenas que Deus esteja conosco e que nós de alguma forma estejamos em contanto com ele, ou servindo-o ou contemplando a sua obra.
Não vou ficar aqui pregando e falando o que cada um deveria fazer com sua crença, mas te digo que pra mim tem funcionado. Tenho certeza absoluta que terei maus dias, mas por enquanto, e hoje, o que posso fazer é agradecer os bons, porque tenho tido muitos.

Termino esta mensagem dizendo que me sinto muito muito abençoada porque sozinha eu tenho certeza absoluta que não conseguiria.

Um forte abraço aí Júnior.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Eu sei, mas não devia

por Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

Fiquei surpresa com a contemporaneidade do texto. Dica precisosa da minha amiga sempre preocupada, Rosana Vitorino

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Escrever...

por Zé Luís


- Você gosta de escrever?
- Sim...
- Por que não aprende?
- Piada antiga essa... você sempre diz isso quando acaba de ler meus textos.
- É sério!
Breve pausa.
- Por que parou de escrever?
- O tipo de público que me lê não precisa saber o que eu transmito. É gente que tem muito mais a ensinar do que a aprender comigo...
- Não te entendo... sério... se ao menos bebesse, ou tivesse tido algum tipo de aneurisma... justificaria um pouco desse raciocínio estranho. Seus leitores são pessoas inteligentes. Talvez se explique por que sejam tão poucos...
- Primeiro eu não sei escrever. Agora, me diz que os parcos leitores que possuo são pessoas inteligentes que praticam a burrice de me acompanhar. Pode ser... isso soa confuso. A proposta prima desse site...
Outra pausa.
- Você não entendeu... essas pessoas inteligentes que te leem. Por que elas não precisam?
- Meu desespero não é ver o sábio continuar sábio. A tragédia humana é ver um imbecil morrer afogado em sua imbecilidade, sem conseguir ver que existem milhares de cordas de salvação a sua volta que poderiam proporcionar histórias menos indigentes... Cria que eles não precisavam morrer idiotas.
- E agora, tantos anos depois dessa batalha digna de Dom Quixote: qual a conclusão?
- Você deve ter percebido... o sujo continua se sujando, e o limpo assim permanece. Nada de novo debaixo do sol...
- Aquele seu plano de fazer diferença não deu certo, correto?
- Não... até agora, não...que eu saiba. Mas estou mais consciente que no meio cristão as coisas não andam bem. Andam da mesma forma que sempre foram pelos séculos posteriores à crucificação...
- Como você é trágico! Não temos Nero jogando cristãos na arena para os leões!
- Trágico? Não pode ser menos que isso. Continuamos com gente posando de santo e cobrando pedágio para pessoas conhecerem a Deus, mas nunca são apresentados, já que Deus não se vende. Isso sempre foi assim.
 - Mas os sites apologéticos? Aquele pessoal que divulga a Palavra?
  - Muitos desses sites visam arrebanhar mais gente maluca, que tem lá sua linha teológica, e por essa "linha" lutam, debatem, insultam, desdenham, agridem... a maioria deles tem interesses que estão bem aquém do centro do Cristianismo. Sempre tem alguém querendo fundar um clube novo, ser percursor de uma forma de entendimento de Cristo - que eles chamam de denominação, onde ele - claro -  estará a frente dessa coisa que defende, na esperança de se projetar, ou defender algum desses que se projetam de forma inconveniente... claro: acaba por virar um ganha pão.
- Eram esses malucos, que se dizem seguidores de Cristo, mas são neuróticos religiosos que só fizeram piorar ao ingressar nos apriscos sem Pastor que você gostaria de ajudar?
- Eram... queria os fazer pensar, ver. Abandonar as besteiras ensinadas nessas pocilgas e fabricas de dementes que alguns chamam de igreja e mostrar o tamanho do Deus que eles deixam de adorar...
- O que conseguiu com isso?
- Um imenso desânimo... uma sensação de Elias quando chegou diante de Deus, após o confronto com Jezabel seguido de sua fuga, e diz: só sobrou eu... claro...Ele tem miríades guardados... mas como disse, você tem razão: parece que vim de La Mancha. Essa mania besta de lutar contra moinhos de vento...
- Mas afinal: vai continuar escrevendo ou não?
- Você já deve ter ouvido falar de pessoas que começam a escrever e aquilo parece ter tomado vida própria?
- Você não consegue responder uma pergunta de uma forma mais booleana?
- Já ouviu falar ou não?
- Sim Eu mesmo já experimentei escrever uma trama e ver ela tomar um rumo que eu mesmo não imaginei até o momento de colocá-la no papel...
-Então... simplesmente, essa força que emanava em mim também se recusa a se pronunciar nesse momento...
- Isso é um não?
- Isso não depende de mim responder. A tal "força" parece que tinha seus propósitos quando veio a mim... mas esse propósito perdeu o sentido faz algum tempo...
-Sim, Luke...
-Luke?
- Luke Skywalker... o Jedi de Guerra nas Estrelas... ele que tinha essas coisas de "força"...
- Você é um palhaço...
- Liga pra mim quando escrever algo...
- Pode demorar pra eu te ligar...
- Eu sei... melhor ainda...
- Talvez escreva algo sobre esse papo.
- Só mostrará que o Cristão Confuso está sem assunto. Não faça isso!
- Você não manda na minha vida...
- Palhaço...