22 de setembro de 2011

Anjos às portas do Inferno

por Zé Luís

-Não entendo por que Ele nos mandou até aqui. O que pensei seria a causa dessa visita?
-Você não é um anjo tão novo para não saber que nós não lemos pensamentos. Como posso saber se a causa de virmos às portas do inferno foi por algo que você matutou?
-Mas o que faremos lá? Entraremos no inferno?
-Entrar? Não. Ficaremos às portas e aguardaremos que o Todo-Poderoso nos conduza segundo sua vontade.

A viagem ao inferno não se constituía em ir a algum lugar distante, embora os que lá residam estão eternamente separados do amor divino. Esse amor é o grande abismo, distância de eras-luz.

A viagem dos dois anjos simplesmente era a redução de seus tamanhos, até o ponto em que pudessem estar no tamanho microscópicos de sua entrada. Só assim puderam vislumbrar aquele micro-cosmo, cercado do que agora aparentavam imensas muralhas ladeadas de colunas, onde outrora existiram cabeças vivas em seus topos. Em determinado trecho(e não tempo: essas dimensões são atemporais), ruíram ao contato da luz que resplandeceu como nunca naquele ambiente. Os restos das cabeças entulhavam a entrada, com os portais de entrada estilhaçados. Ao lado dos portais escancarados, o minusculo esqueleto de um pequeno cão de três cabeças espalhava-se pelo solo lodoso e escorregadio.

-Por que matar um pequeno cãozinho ao lado de sua casinha? - questionou o anjo inexperiente.
-Quando Ele pegou às chaves daqui, levando os que eram dele mas estavam cativos., a tranca foi destruída, como pode ver...
-Esta pequena portinhola é a entrada do inferno? Então, esse pequeno esqueleto de cachorro, que mais parece um chihuahua é Cérberos? O temido cão guardião de três cabeças?
-Isso... era uma ameaça e uma desculpa a todos que diziam querer escapar deste lugar.
-Desculpa?
-Sim, você já vai entender... aguardemos no silêncio. Creio que sei o que você pensou, e sua resposta já deve estar a caminho.

Enquanto os anjos esperavam Nele, pequenas pulgas negras surgiam da escuridão, que se derretia à luz dos seres. O mais novo dos seres celestes chegou a pensar que poderiam ser pulgas do falecido Cérbero, mas elas soltavam um pequeno e ininterrupto ganido, fino e irritante.

-Diminua seus ouvidos e se aproxime, não são pulgas, mas almas – disse o iluminado mais experiente. O mais novo diminuiu-se até que pode entender o que dizia o que julgou serem pulgas:

-Saiam daqui, nós não queremos vocês! Nós odiamos seu redentor! Saiam! Não existe nada em vocês que nos agradem! Fora! Deixem-nos nessa morte! Fora! Não queremos seus favores! Nós somos melhores que vocês e um dia isso tudo vai mudar...

Essas eram as palavras que os seres, um dia homens e mulheres na terra, vociferavam contra tudo e entre si.

-Não adianta – disse o anjo velho – Todos pensam, em um momento, que há escolha para os condenados ao eterno castigo. Foi isso que você pensou...

O anjo menor só olhava para os pequenos seres, em silêncio, enquanto começava a voltar a crescer. O maior continuou:

-Assim como você, essa questão um dia me rondou. O que esquecemos é que aqui não há como idealizar um deus segundo seus egoísmos. Amar ao Senhor teu Deus quando se sabe exatamente quem Ele é, é o que define se você faz parte do céu ou não, no dia do juízo, eles amavam ou odiavam, definindo claramente ovelhas de bodes. Eles estão aí por não existir no Universo inteiro outro lugar que lhes caibam. Quando o fim chega, e tudo é desnudo desse lado, é que compreendem a Perfeição da Justiça, onde discursos e hipocrisias tem seu peso de moeda, e toda a mentira, nascida nessa escuridão onde arrastam-se, é o que julgam ser sua tabua de salvação.

-Essas vidas, reduzidas a isso... - lamentou o anjo menor.
-Vamos, sua resposta foi dada. Eles se reduziram.

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