18 de novembro de 2012

Como montar um império

por Zé Luís

- Como vocês dominarão o mundo, papai?
O menino ouviu toda a conversa que seu pai teve, na companhia de seus amigos, tinham em plena sala de estar. Eles riam e mesclavam esse assunto com outros de menor importância: mulheres, religião, o novo modelo de carro lançado. O pai não conseguiu disfarçar a admiração pelo interesse do menino, tão jovem, diante de um tema tão delicado.
- Não sei se entenderá, meu filho... a coisa não é tão simples de explicar. Demanda tempo, dinheiro, estratégia, influência no pensamento local onde o plano for executado...
- Um exemplo? Quem sabe eu entenda... - insistiu, enquanto o pai cobria-o e dava seu beijo de boa noite. Uma cisma incomum por assunto tão complexo. O loiro homem encarou-o com seus olhos azuis, e com um sorriso malicioso, começou:
- Os índios nativos das Américas trocavam seus bens - para nós – mais preciosos por quinquilharias, bugigangas. Ouro e metais por espelhos, bijuterias, miçangas. Além disso, um explorador, esses homens que vem em busca de novas terras, tem por tradição ter certo poderio bélico, o que superava em muito os tacapes e flechas dos nativos. Não demorou muito para usarem a força ao invés de lixo em suas negociações; percebiam rápido que era mais rápido tomar a força do que negociar com lixo, embora essa atitude armada acabe causando revoltas, o que não é bom para os negócios. Foi assim na escravatura, nos antigos povos conquistadores...
Fez uma breve pausa, e a criança continuava acordada, entendendo tudo sobre aquele assunto tão “chato” para um menino, o que normalmente faria até alguns adultos dormirem. Ele continuou:
- Dentro dessa estratégia, decidimos que controlariamos essas pequenas repúblicas, oferecendo nossos espelhos e bijuterias a troco de seu ouro, propagar nossa cultura sobre as outras culturas, tornando-os consumidores do que nossa cultura produz, e fazendo com que eles abandonem a deles. Produzir aqui para vender lá só seria possível se incutíssemos na cabeça daquelas populações nativas que nossos cacarecos valiam as almas deles. Incutiremos através de propaganda nos filmes, músicas, livros, mas para ter certeza, procuraremos quem realmente tem poder para dominar essas nações: não os políticos, mas quem tem armas, as lideranças militares de cada um deles, incutindo neles a ameaça que rodeia o mundo moderno, e a necessidade de proteger-se contra o inimigo imaginário que virá nos destruir...
 - Os comunistas, papai?
- Isso... o mesmo que fizemos nas cabeças de nosso povo. O medo da insegurança é uma ótima justificativa, quando queremos fazer algo politicamente “duvidoso”. Mas claro: lidaremos com homens, antes de serem militares, e oferecer o poder de governar seus países a troco de consumir de uma cultura que busca “proteger o mundo contra o mal vermelho” (o seja lá que mal inventaremos para convencê-los: poderemos exportar nossa religião adaptadamente capitalista, contar sobre o diabo estar a frente de um complô contra os santos de Deus, encabeçados, claro, por nós)...
O garoto continuava acordada. Parecia ligado àquela história como se entendesse realmente do que seu progenitor falava. Era muito jovem, mas parecia assimilar cada palavra ali proferida. O pai nem se dava mais conta que ele permanecia desperto, e falava agora abertamente, como se discursasse entre os seus:
 - Inventaremos guerras, e venderemos nossas armas; nossos filmes dirão o que devem vestir, comer, beber, fumar, quem devem odiar. Nas histórias onde o mundo é salvo, seremos sempre nós os heróis, e os vilões sempre serão e falarão o idioma da nacionalidade a ser odiada pela nação que come na nossa mão: falarão russo, árabe, serão bandidos descendentes de espanhóis nativos de uma ilha que se recusa a consumir nossas bijuterias. Em breve, cantarão nossas músicas e tocarão nossos ritmos, mesmo sem saber o que significa realmente o que falamos. Virão do mundo todo e sonharão em viver nossas vidas, mesmo que apenas para ser nossos serviçais. Darão sua vida e sua mão de obra para consumir o que nós cuspimos.
- É um sonho, papai. Será que conseguiremos?
 - Difícil crer que nações inteiras aceitarão isso, que abrirão as portas de suas casas, ansiosas para ouvir nossas piadas, nossa imoralidade, prostituição, aceitar nossa violência e amor pela matança da guerra. Mas manteremos nossos aliados militares governando durante um bom tempo até se adaptarem. Eles manterão - a força, se necessário – o tempo suficiente para que nossa cultura se infiltre em todos os ramos da sociedade, e que eles creiam que consumir de nossos estoques seja natural.
- E eles não perceberão?
 - Pouquíssimos. Inicialmente, nossos amigos militares resolverão, nossa mídia os acusarão de “rebeldes”,”terroristas”, “guerrilheiros”, palavras que a religião implantada relacionará ao “mal”,”trevas”,”inimigo do bem”. A própria população colaborará, crendo que estão fazendo o certo, mesmo que seja irmão entregando irmão, filho entregando o pai. Com o tempo, não precisaremos mais dessa força militar, de manter a verdade oculta. Eles se acostumarão a consumir nosso pior, os restos, a má qualidade que encalhou em nossos lixões. E serão felizes com isso...
 - De quem foi essa ideia, papai?
 - Desde que o mundo é mundo é assim: os impérios são feitos dessa forma, meu filho amado.
 - E quando nossa grande nação dará início a esse domínio?
 - Alguns já acontecem agora. Ano que vem, em 1964, já tem um programado lá para as bandas da América do Sul .. mas agora durma, filhinho. Amanhã é domingo e iremos à igreja: O pastor John pregará em João 3.16... sou sempre edificado com os sermões sobre o amor desse homem de Deus...